
Há noites eu caminhava com uma caravana em direção do oeste de Catai, impulsionada por um homem que me aparecera em um sonho e me mandara encontrá-lo num vale verdejante. Por algum motivo especial eu deveria estar com ele no Vale de Kashmir, supunha.
Em Catai, deixara Meu Senhor de sangue, o Mestre que me abraçara e tornara sua cria. Era a primeira vez que nos separávamos depois de tanto tempo juntos. No entanto, os sentimentos que nos uniam eram por demais fortes e na minha mente eu guardava a certeza que a nossa convivência não terminaria ali. Por isso, seguia tranqüila. Agora, era premente que eu encontrasse o homem presente no meu sonho. Em tão breve momento, ele me passara uma aura de coragem, perseverança e paz. Eu tinha que ir.. não havia como evitar.
Durante os dias desta viagem longa, nos momentos que antecediam aos primeiros raios da aurora, eu me recolhia em esconderijos, para impedir que o sol desse fim a minha existência. Mas, quando a noite descia e tudo cobria com seu manto negro, continuava minha jornada, sentindo-me levada por uma mão poderosa, na direção de alguma parte do meu destino.
Foram muitas e muitas luas até chegar a um vilarejo com poucas casas, habitadas por pessoas de hábitos singulares. Eu não via mulheres, somente homens. Seus olhos eram muito negros, os cabelos raspados. Suas peles escurecidas e encarquilhadas eram sua única vestimenta. Os pés, calejados pelo andar direto na terra, eram ágeis e fortes, não tão ágeis quanto os meus, no entanto, que me permitiam deslocar rapidamente de um lugar para outro, como um raio.
Era quase o meio da noite quando entrei no povoado, a maioria dos moradores já se recolhera para dormir. Foi quando percebi ao longe o mesmo homem coberto por mantos negros, que me enviara a mensagem enquanto eu dormia. Também ali, ele emanava uma sensação de paz tamanha, que eu apenas concebia em meus sonhos mais distantes. A sensação que eu tinha ao vê-lo era semelhante às miragens do deserto de Gobe.
Ele conversava com um homem muito grande e forte, que mais parecia um animal, quando se sentiu atraído pela minha presença às suas costas. Virou-se então rapidamente e nossos olhos se encontraram pela segunda vez, agora em tempo real. Nos aproximamos e ele disse, com voz pausada e macia:_De onde vens, linda criatura? Quem tu és?_Intriga-me que não saibas, Nobre Senhor, pois obedeço ao teu chamado. Dissestes, em meus sonhos que aqui te encontrasse. Andei muitas e muitas luas para estar contigo. É estranho que não me aguardes._Pois, peço-te desculpas por não te reconhecer e confesso que também estivestes nos meus sonhos. Teríamos vindo, pela vontade de um ser maior?Assim dizendo, ele estendeu as duas mãos e, tocando meus ombros, se apresentou: _Sou Abraham Al Hazer, da Casa Cappadocius, é um prazer inenarrável este encontro contigo. _ O mesmo digo a ti, Nobre Senhor. Eu sou Layla, Filha da Noite, Minha Casa é a dos Toreador.
Em seguida, ele me apresentou ao homem com quem conversava. Um ser muito alto e forte, corpo coberto por pelos e pinturas, mais parecendo um felino. Suas mãos e pés chamaram a minha atenção, eram muito grandes e mais pareciam garras com dedos enormes. Ele olhou para mim surpreso, porque eu era muito pequena diante dele e Al Hazer cuidou das apresentações:_ Ashtar, esta é Layla, criatura das noites de Catai, uma Toreador. Também está aqui a um chamado. Penso que uma importante missão nos foi reservada. Devemos manter-nos unidos, para qualquer fim._ Layla, este é Ashtar, da Casa dos Gangrel, uma criatura da noite também como nós. Ele vem do extremo Leste e, como nós, tem uma missão aqui também.
Se já tinha que levantar os olhos para colocá-los dentro do olhar de Al Hazer, diante daquele homem enorme, o maior que eu já vira até então, tive que me esticar inteira. Nos cumprimentamos e conversamos por algum tempo. Por mais que sua imagem me lembrasse a de uma fera, sua essência me parecia de certa forma doce, mas extremamente esperta, talvez por se assemelhar com um animal.
Depois, saímos andando para reconhecermos melhor o local. Era um lugar de rara beleza, cercado por montanhas viçosas, de onde nascia um rio que se tornava mais largo gradativamente. Um pequeno povoado fora construído em uma de suas margens, as pequenas casas de barro eram muito bem feitas, todas do mesmo tamanho e estilo. Atrás delas, uma floresta densa, com fauna e flora abundantes se estendia no entorno do vale.
A noite estava clara. Uma lua imensa banhava de prata toda a vida que ali havia. Isto me fez pensar: “Porque os mortais não aprendem a valorizar as trevas e guardam para elas seus momentos de repouso? A beleza e a quietude da escuridão propiciam tanto à criação.. até os prazeres são mais intensos à noite...”
Absorta em meus pensamentos, por pouco me esquecia que não estava só. Al Hazer fez com que eu voltasse à realidade e contou-nos que, pouco antes da nossa chegada, estivera com uma criatura nativa, um homem muito acolhedor que lhe oferecera abrigo em sua casa.
Seus olhos desviaram dos meus e os meus acompanharam os dele, até um ponto perto da margem do rio onde dois nativos obedeciam a um ritual. Deitados de frente para a terra, jogando o corpo para cima e para baixo, num ritmo sincopado e crescente, entoavam um mantra numa língua estranha. Um deles, vestia uma túnica vermelha com uma faixa amarela, o outro com uma faixa branca. Neste momento, além deles, nenhum morador daquela aldeia era visto fora de suas casas.
_ Precisamos pensar onde nos abrigar antes que a noite se vá, disse Al Hazer. E acrescentou:_ Estou certo que vós, meus amigos, serão também gentilmente acolhidos, como eu fui. Será um prazer dividir convosco o mesmo teto. O homem que me ofereceu sua casa, ficará com certeza feliz em recebe-vos também.Agradeci a oferta e aceitei prontamente. Ashtar, no entanto preferiu se embrenhar na mata e fazer da terra seu leito de sono. Nos despedimos, e eu segui Al Hazer para uma investigação no povoado.
As casas de barro eram bem feitas. Do lado de fora podíamos ver, com nossa visão privilegiada, seu interior. Os habitantes pareciam dormir tranquilos. Sobre as mesas, restos da refeição noturna. O silêncio era profundo, só quebrado pelo mantra dos dois homens vestidos, que continuavam suas orações num ritual que parecia não ter fim. Continuamos andando até que me deparei com a visão magnífica de um cavalo castanho, muito maior e mais bonito do que todos que eu já vira até então. Algo na minha mente me remetia ao passado, mas eu não me lembrava do que, por mais que me esforçasse.
Percebendo meu interesse e o brilho de encantamento em meu olhar, Al Hazer disse em tom de alerta:_ Cuidado, Filha da Noite, este é Chenar, meu carniçal. Pode parecer dócil, à primeira vista, mas é por demais arisco e sempre violento com estranhos. Sorri, já quase em êxtase, diante da beleza do animal:_ Permita-me tocá-lo, Senhor, por favor.Delicadamente, meu amigo tomou minha mão entre as suas e permitiu que eu deslizasse a ponta dos dedos com suavidade sobre o pelo macio. O cavalo não esboçou nenhuma reação e se deixou ser tocado por mim. Preocupado diante do meu encantamento e me percebendo quase em frenesi, Al Hazer achou melhor que saíssemos dali e convidou-me a entrar na casa que fora oferecida a ele como abrigo.
Os moradores dormiam. Pareciam mergulhados em sono profundo. Na sala, havia uma pequena mesa ao centro, tendo à roda bancos feitos com troncos de árvores. À direita, uma cortina separava a sala de um dos cômodos. Estava fixada bem no alto, de um dos lados, e do outro presa por um gancho, de onde podia ser retirada para passagem. Meu amigo suspendeu a cortina e vimos lá dentro um casal e uma criança. Seus olhos brilharam e a ponta de seus caninos apareceram levemente. Mas, ele desceu de imediato a cortina e nos dirigimos ao fundo da casa. Não seria nada honroso alimentar-se dos familiares do homem que lhe oferecera guarida.
Mais um cômodo separado por uma cortina, este vazio, guardava apenas alguns vasos e potes de barro. Ali deveríamos ficar. Meu amigo correu os olhos calculando milimetricamente as possibilidades para nosso descanso e disse:_Veja, caríssima, aqui não podemos ficar. As paredes contêm inúmeros furos para a entrada do ar. Será um desastre para nós, quando as trevas se forem e os raios de luz por eles entrarem, não nos restará mais nada. Temos que encontrar um lugar mais seguro para o nosso descanso, portanto.
Saímos à procura de grutas no sopé das montanhas. Não havia nenhuma. Só nos restava uma opção: fazer do fundo do rio nosso leito de sono. Al Hazer, mais uma vez, me pareceu uma criatura singular. Havia uma paz que dele era irradiada e eu pensei que meus novos companheiros, eram pessoas amigas, em quem poderia confiar. Nos despimos, deixando nossos trajes sobre uma pedra, próximo a Chenar e entramos na água tépida.Ele seguiu na frente, mergulhou, voltou à tona e disse: _Teremos que cobrir nossos corpos com lama, porque apenas 15 metros de profundidade nos separam dos raios solares. Muito pouco para nossa segurança.Então, mergulhamos, nos cobrimos com o barro existente no fundo e nos desligamos da vida enquanto o sol permaneceu.Assim que as trevas chegaram, nadei para superfície, banhei meu corpo e lavei os cabelos. Sempre gostava daquele ritual que me trazia à lembrança, Zathar, Meu Senhor. Durante o tempo que estivemos juntos na floresta em Catai, muitas noites passávamos dentro da minha pequena cabana. Foram momentos preciosos de aprendizado e prazer. Mas, antes que os primeiros raios descessem, ele me ensinara a descansar no fundo do rio, ou em grutas existentes na base da montanha de árvores no formato de agulhas que eu amava tanto.
Balancei a cabeça para espantar as saudades e decidi não me vestir. Andei nua investigando o lugar para onde tínhamos sido levados. Eu, Abraham Al Hazer e Ashtar tínhamos algo de muito importante a fazer ali. Precisávamos descobrir... uma leve inquietação apertava meu peito. Mas, logo, meu companheiro de sonhos surgiu das águas e veio ter comigo._Não vais te vestir, criatura?_Não devemos, Senhor. Os moradores deste povoado não cobrem seus corpos. Seria deselegante e indelicado da nossa parte esconder nossa nudez. Seus hábitos devem respeitados._Estás coberta de razão, minha cara. E sorriu elogiando minha percepção.
Mais tarde, me contou como havia sido seu encontro com Ashtar, o que acontecera com dois nativos e como se mantiveram alimentados. Disse a ele que não devíamos saciar nossa fome com o sangue dos moradores daquele pequeno povoado. Ele olhou para mim interrogativamente e eu percebendo o que ele queria saber, disse: _Se nos alimentarmos dessas pessoas, em pouco tempo não restará ninguém. Creio que, de alguma forma, estamos aqui para protege-los e não para dizimá-los, Senhor. Tenho comigo ervas poderosas que aprendi a cultivar em Catai. Uma delas trás o benefício de reproduzir o sangue rapidamente. Podemos angariar a confiança destas pessoas e oferecer-lhes a cura para vários males. Além disso, podemos dar a eles uma regeneração rápida, em troca do que é para nós o bem mais precioso, seu sangue para nosso alimento.
Mais uma vez, Al Hazer olhou para mim de maneira surpresa com o meu comportamento e seguimos à procura de Ashtar. Quando o encontramos, ele nos contou que havia mergulhado na terra e se fundido com ela, seu sono também havia sido reparador. E contou ainda que estava sendo objeto de observação de um corvo estranho e indicou com os olhos a ave empoleirada num dos galhos mais altos de uma árvore. Ao ser percebido, o animal imediatamente voou para longe. Mas, Ashtar também muito rápido, se metamorfoseou em um grande morcego e, batendo as asas enormes e prateadas, desapareceu na captura do corvo. Este, no entanto, desaparecera na mata. Estávamos realmente sendo observados. Por quem???
Com a volta de Ashtar, combinamos nos separar para melhor seguir com a investigação daquilo que nos trouxera ali. Eu me dirigi ao povoado para espreitar as casas e as pessoas que nelas viviam. Al Hazer saiu à procura do homem que lhe oferecera abrigo e Ashtar voltou à floresta. Cada um de nós mergulhou no que era mais habilidoso e, quando nos encontramos novamente, dividimos uns com outros nossas impressões.
Ashtar, contou que encontrara uma coruja grande e branca, que lhe prometera informações a respeito do desaparecimento do corvo e do que ele fazia ali nos espreitando. Presa em sua cintura, o Gangrel trazia uma lebre enorme. Ele explicou que era fruto de uma caçada e que este tinha sido o preço estipulado pela coruja em troca das informações. Muitas coisas importantes poderiam ser descobertas a partir daquele contato.
Al Hazer parecia muito preocupado, várias vezes desviava o olhar na direção do leste. Contou que o homem que lhe dera hospedagem era um espiritualista poderoso e parecia saber muitas coisas. Mas que, só falaria no momento certo.
Eu, dividia com meus novos amigos o que descobrira em minhas investidas pelo povoado, quando Al Hazer disse muito sério:_ Uma enorme mancha negra caminha nesta direção, vinda do leste. Preciso viajar até lá para descobrir o que é. Não tenho bons presságios, Um grande perigo ameaça esta região e tudo que nela vive. _O que seria, Senhor? Perguntei curiosa._Vou descobrir, caríssima. Enquanto isto, tome conta da minha matéria. Se eu não voltar antes que as trevas saiam, leve meu corpo para o fundo do rio, como fizemos ontem, para que não pereça sob os raios do dia. Vou tranqüilo porque sei que posso contar com tua lealdade e dedicação._Vá, descansado, Senhor, a Filha da Noite cuidará não só de Ti, como também do teu carniçal e das pessoas que aqui vivem. Com a ajuda de Ashtar, tudo estará bem.
Dito isto, Al Hazer sentou-se na posição de Lótus e deixou seu espírito fluir no espaço em direção à mancha que crescia. Minha mente me dizia, no entanto, que algo de muito ruim estava para acontecer. E os presságios não foram infundados. No tempo certo Al Hazer não havia retornado e eu sabia que algo sério impedia sua volta. No entanto, o povoado parecia tranquilo. O silêncio era enorme, só quebrado pelo mantra dos dois homens que continuavam o ritual.
Em Catai, deixara Meu Senhor de sangue, o Mestre que me abraçara e tornara sua cria. Era a primeira vez que nos separávamos depois de tanto tempo juntos. No entanto, os sentimentos que nos uniam eram por demais fortes e na minha mente eu guardava a certeza que a nossa convivência não terminaria ali. Por isso, seguia tranqüila. Agora, era premente que eu encontrasse o homem presente no meu sonho. Em tão breve momento, ele me passara uma aura de coragem, perseverança e paz. Eu tinha que ir.. não havia como evitar.
Durante os dias desta viagem longa, nos momentos que antecediam aos primeiros raios da aurora, eu me recolhia em esconderijos, para impedir que o sol desse fim a minha existência. Mas, quando a noite descia e tudo cobria com seu manto negro, continuava minha jornada, sentindo-me levada por uma mão poderosa, na direção de alguma parte do meu destino.
Foram muitas e muitas luas até chegar a um vilarejo com poucas casas, habitadas por pessoas de hábitos singulares. Eu não via mulheres, somente homens. Seus olhos eram muito negros, os cabelos raspados. Suas peles escurecidas e encarquilhadas eram sua única vestimenta. Os pés, calejados pelo andar direto na terra, eram ágeis e fortes, não tão ágeis quanto os meus, no entanto, que me permitiam deslocar rapidamente de um lugar para outro, como um raio.
Era quase o meio da noite quando entrei no povoado, a maioria dos moradores já se recolhera para dormir. Foi quando percebi ao longe o mesmo homem coberto por mantos negros, que me enviara a mensagem enquanto eu dormia. Também ali, ele emanava uma sensação de paz tamanha, que eu apenas concebia em meus sonhos mais distantes. A sensação que eu tinha ao vê-lo era semelhante às miragens do deserto de Gobe.
Ele conversava com um homem muito grande e forte, que mais parecia um animal, quando se sentiu atraído pela minha presença às suas costas. Virou-se então rapidamente e nossos olhos se encontraram pela segunda vez, agora em tempo real. Nos aproximamos e ele disse, com voz pausada e macia:_De onde vens, linda criatura? Quem tu és?_Intriga-me que não saibas, Nobre Senhor, pois obedeço ao teu chamado. Dissestes, em meus sonhos que aqui te encontrasse. Andei muitas e muitas luas para estar contigo. É estranho que não me aguardes._Pois, peço-te desculpas por não te reconhecer e confesso que também estivestes nos meus sonhos. Teríamos vindo, pela vontade de um ser maior?Assim dizendo, ele estendeu as duas mãos e, tocando meus ombros, se apresentou: _Sou Abraham Al Hazer, da Casa Cappadocius, é um prazer inenarrável este encontro contigo. _ O mesmo digo a ti, Nobre Senhor. Eu sou Layla, Filha da Noite, Minha Casa é a dos Toreador.
Em seguida, ele me apresentou ao homem com quem conversava. Um ser muito alto e forte, corpo coberto por pelos e pinturas, mais parecendo um felino. Suas mãos e pés chamaram a minha atenção, eram muito grandes e mais pareciam garras com dedos enormes. Ele olhou para mim surpreso, porque eu era muito pequena diante dele e Al Hazer cuidou das apresentações:_ Ashtar, esta é Layla, criatura das noites de Catai, uma Toreador. Também está aqui a um chamado. Penso que uma importante missão nos foi reservada. Devemos manter-nos unidos, para qualquer fim._ Layla, este é Ashtar, da Casa dos Gangrel, uma criatura da noite também como nós. Ele vem do extremo Leste e, como nós, tem uma missão aqui também.
Se já tinha que levantar os olhos para colocá-los dentro do olhar de Al Hazer, diante daquele homem enorme, o maior que eu já vira até então, tive que me esticar inteira. Nos cumprimentamos e conversamos por algum tempo. Por mais que sua imagem me lembrasse a de uma fera, sua essência me parecia de certa forma doce, mas extremamente esperta, talvez por se assemelhar com um animal.
Depois, saímos andando para reconhecermos melhor o local. Era um lugar de rara beleza, cercado por montanhas viçosas, de onde nascia um rio que se tornava mais largo gradativamente. Um pequeno povoado fora construído em uma de suas margens, as pequenas casas de barro eram muito bem feitas, todas do mesmo tamanho e estilo. Atrás delas, uma floresta densa, com fauna e flora abundantes se estendia no entorno do vale.
A noite estava clara. Uma lua imensa banhava de prata toda a vida que ali havia. Isto me fez pensar: “Porque os mortais não aprendem a valorizar as trevas e guardam para elas seus momentos de repouso? A beleza e a quietude da escuridão propiciam tanto à criação.. até os prazeres são mais intensos à noite...”
Absorta em meus pensamentos, por pouco me esquecia que não estava só. Al Hazer fez com que eu voltasse à realidade e contou-nos que, pouco antes da nossa chegada, estivera com uma criatura nativa, um homem muito acolhedor que lhe oferecera abrigo em sua casa.
Seus olhos desviaram dos meus e os meus acompanharam os dele, até um ponto perto da margem do rio onde dois nativos obedeciam a um ritual. Deitados de frente para a terra, jogando o corpo para cima e para baixo, num ritmo sincopado e crescente, entoavam um mantra numa língua estranha. Um deles, vestia uma túnica vermelha com uma faixa amarela, o outro com uma faixa branca. Neste momento, além deles, nenhum morador daquela aldeia era visto fora de suas casas.
_ Precisamos pensar onde nos abrigar antes que a noite se vá, disse Al Hazer. E acrescentou:_ Estou certo que vós, meus amigos, serão também gentilmente acolhidos, como eu fui. Será um prazer dividir convosco o mesmo teto. O homem que me ofereceu sua casa, ficará com certeza feliz em recebe-vos também.Agradeci a oferta e aceitei prontamente. Ashtar, no entanto preferiu se embrenhar na mata e fazer da terra seu leito de sono. Nos despedimos, e eu segui Al Hazer para uma investigação no povoado.
As casas de barro eram bem feitas. Do lado de fora podíamos ver, com nossa visão privilegiada, seu interior. Os habitantes pareciam dormir tranquilos. Sobre as mesas, restos da refeição noturna. O silêncio era profundo, só quebrado pelo mantra dos dois homens vestidos, que continuavam suas orações num ritual que parecia não ter fim. Continuamos andando até que me deparei com a visão magnífica de um cavalo castanho, muito maior e mais bonito do que todos que eu já vira até então. Algo na minha mente me remetia ao passado, mas eu não me lembrava do que, por mais que me esforçasse.
Percebendo meu interesse e o brilho de encantamento em meu olhar, Al Hazer disse em tom de alerta:_ Cuidado, Filha da Noite, este é Chenar, meu carniçal. Pode parecer dócil, à primeira vista, mas é por demais arisco e sempre violento com estranhos. Sorri, já quase em êxtase, diante da beleza do animal:_ Permita-me tocá-lo, Senhor, por favor.Delicadamente, meu amigo tomou minha mão entre as suas e permitiu que eu deslizasse a ponta dos dedos com suavidade sobre o pelo macio. O cavalo não esboçou nenhuma reação e se deixou ser tocado por mim. Preocupado diante do meu encantamento e me percebendo quase em frenesi, Al Hazer achou melhor que saíssemos dali e convidou-me a entrar na casa que fora oferecida a ele como abrigo.
Os moradores dormiam. Pareciam mergulhados em sono profundo. Na sala, havia uma pequena mesa ao centro, tendo à roda bancos feitos com troncos de árvores. À direita, uma cortina separava a sala de um dos cômodos. Estava fixada bem no alto, de um dos lados, e do outro presa por um gancho, de onde podia ser retirada para passagem. Meu amigo suspendeu a cortina e vimos lá dentro um casal e uma criança. Seus olhos brilharam e a ponta de seus caninos apareceram levemente. Mas, ele desceu de imediato a cortina e nos dirigimos ao fundo da casa. Não seria nada honroso alimentar-se dos familiares do homem que lhe oferecera guarida.
Mais um cômodo separado por uma cortina, este vazio, guardava apenas alguns vasos e potes de barro. Ali deveríamos ficar. Meu amigo correu os olhos calculando milimetricamente as possibilidades para nosso descanso e disse:_Veja, caríssima, aqui não podemos ficar. As paredes contêm inúmeros furos para a entrada do ar. Será um desastre para nós, quando as trevas se forem e os raios de luz por eles entrarem, não nos restará mais nada. Temos que encontrar um lugar mais seguro para o nosso descanso, portanto.
Saímos à procura de grutas no sopé das montanhas. Não havia nenhuma. Só nos restava uma opção: fazer do fundo do rio nosso leito de sono. Al Hazer, mais uma vez, me pareceu uma criatura singular. Havia uma paz que dele era irradiada e eu pensei que meus novos companheiros, eram pessoas amigas, em quem poderia confiar. Nos despimos, deixando nossos trajes sobre uma pedra, próximo a Chenar e entramos na água tépida.Ele seguiu na frente, mergulhou, voltou à tona e disse: _Teremos que cobrir nossos corpos com lama, porque apenas 15 metros de profundidade nos separam dos raios solares. Muito pouco para nossa segurança.Então, mergulhamos, nos cobrimos com o barro existente no fundo e nos desligamos da vida enquanto o sol permaneceu.Assim que as trevas chegaram, nadei para superfície, banhei meu corpo e lavei os cabelos. Sempre gostava daquele ritual que me trazia à lembrança, Zathar, Meu Senhor. Durante o tempo que estivemos juntos na floresta em Catai, muitas noites passávamos dentro da minha pequena cabana. Foram momentos preciosos de aprendizado e prazer. Mas, antes que os primeiros raios descessem, ele me ensinara a descansar no fundo do rio, ou em grutas existentes na base da montanha de árvores no formato de agulhas que eu amava tanto.
Balancei a cabeça para espantar as saudades e decidi não me vestir. Andei nua investigando o lugar para onde tínhamos sido levados. Eu, Abraham Al Hazer e Ashtar tínhamos algo de muito importante a fazer ali. Precisávamos descobrir... uma leve inquietação apertava meu peito. Mas, logo, meu companheiro de sonhos surgiu das águas e veio ter comigo._Não vais te vestir, criatura?_Não devemos, Senhor. Os moradores deste povoado não cobrem seus corpos. Seria deselegante e indelicado da nossa parte esconder nossa nudez. Seus hábitos devem respeitados._Estás coberta de razão, minha cara. E sorriu elogiando minha percepção.
Mais tarde, me contou como havia sido seu encontro com Ashtar, o que acontecera com dois nativos e como se mantiveram alimentados. Disse a ele que não devíamos saciar nossa fome com o sangue dos moradores daquele pequeno povoado. Ele olhou para mim interrogativamente e eu percebendo o que ele queria saber, disse: _Se nos alimentarmos dessas pessoas, em pouco tempo não restará ninguém. Creio que, de alguma forma, estamos aqui para protege-los e não para dizimá-los, Senhor. Tenho comigo ervas poderosas que aprendi a cultivar em Catai. Uma delas trás o benefício de reproduzir o sangue rapidamente. Podemos angariar a confiança destas pessoas e oferecer-lhes a cura para vários males. Além disso, podemos dar a eles uma regeneração rápida, em troca do que é para nós o bem mais precioso, seu sangue para nosso alimento.
Mais uma vez, Al Hazer olhou para mim de maneira surpresa com o meu comportamento e seguimos à procura de Ashtar. Quando o encontramos, ele nos contou que havia mergulhado na terra e se fundido com ela, seu sono também havia sido reparador. E contou ainda que estava sendo objeto de observação de um corvo estranho e indicou com os olhos a ave empoleirada num dos galhos mais altos de uma árvore. Ao ser percebido, o animal imediatamente voou para longe. Mas, Ashtar também muito rápido, se metamorfoseou em um grande morcego e, batendo as asas enormes e prateadas, desapareceu na captura do corvo. Este, no entanto, desaparecera na mata. Estávamos realmente sendo observados. Por quem???
Com a volta de Ashtar, combinamos nos separar para melhor seguir com a investigação daquilo que nos trouxera ali. Eu me dirigi ao povoado para espreitar as casas e as pessoas que nelas viviam. Al Hazer saiu à procura do homem que lhe oferecera abrigo e Ashtar voltou à floresta. Cada um de nós mergulhou no que era mais habilidoso e, quando nos encontramos novamente, dividimos uns com outros nossas impressões.
Ashtar, contou que encontrara uma coruja grande e branca, que lhe prometera informações a respeito do desaparecimento do corvo e do que ele fazia ali nos espreitando. Presa em sua cintura, o Gangrel trazia uma lebre enorme. Ele explicou que era fruto de uma caçada e que este tinha sido o preço estipulado pela coruja em troca das informações. Muitas coisas importantes poderiam ser descobertas a partir daquele contato.
Al Hazer parecia muito preocupado, várias vezes desviava o olhar na direção do leste. Contou que o homem que lhe dera hospedagem era um espiritualista poderoso e parecia saber muitas coisas. Mas que, só falaria no momento certo.
Eu, dividia com meus novos amigos o que descobrira em minhas investidas pelo povoado, quando Al Hazer disse muito sério:_ Uma enorme mancha negra caminha nesta direção, vinda do leste. Preciso viajar até lá para descobrir o que é. Não tenho bons presságios, Um grande perigo ameaça esta região e tudo que nela vive. _O que seria, Senhor? Perguntei curiosa._Vou descobrir, caríssima. Enquanto isto, tome conta da minha matéria. Se eu não voltar antes que as trevas saiam, leve meu corpo para o fundo do rio, como fizemos ontem, para que não pereça sob os raios do dia. Vou tranqüilo porque sei que posso contar com tua lealdade e dedicação._Vá, descansado, Senhor, a Filha da Noite cuidará não só de Ti, como também do teu carniçal e das pessoas que aqui vivem. Com a ajuda de Ashtar, tudo estará bem.
Dito isto, Al Hazer sentou-se na posição de Lótus e deixou seu espírito fluir no espaço em direção à mancha que crescia. Minha mente me dizia, no entanto, que algo de muito ruim estava para acontecer. E os presságios não foram infundados. No tempo certo Al Hazer não havia retornado e eu sabia que algo sério impedia sua volta. No entanto, o povoado parecia tranquilo. O silêncio era enorme, só quebrado pelo mantra dos dois homens que continuavam o ritual.

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