quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Tien Kuei - Pulsão de Vida e Pulsão de Morte



Não, não estávamos em casa... estávamos muito e muito distantes... em nossas mentes, no entanto, tínhamos a certeza de que íamos em direção ao nosso destino. A nossa frente se estendia um campo amplo e sem árvores... sob nossos pés, uma vegetação herbácea, cercada por outra mais densa, com árvores de caules grossos, altos e copas bastante grandes. Estávamos cercados pela selva.Caminhávamos ainda calados, eu e Ashtar, meu amigo querido. Eu me encantava com as gramíneas e árvores pequeninas e esparsas, que nos cercavam até onde podíamos ver as árvores imensas da floresta. Bem à nossa frente, um ser muito estranho. Muito feio para muitos... mas, para mim, apenas triste.
Eu sempre via a beleza de uma forma diferente. Podia me deparar com alguém que tivesse sua beleza cultuada de norte a sul, e não me dizer nada e em nada me fascinar... ao mesmo tempo, poderia desejar ardentemente seres com quatro olhos, ou chifres nascidos no meio da testa, seres cuja pele fosse esverdeada e coberta por escamas... e, ainda, azul e fria. Nada disso me impressionava. Era uma filha da Casa dos Toreador, é certo. Mas a beleza que em mim exercia fascínio não estava apenas na harmonia dos traços, na suavidade das cores, ou texturas... a beleza, para mim, estava fortemente ligada aquilo que os mortais chamavam de alma e que me fascinava tanto.
Por isso, enquanto percebia a expressão de espanto nos olhos de Ashtar ao se deparar com o que ele via como monstro, eu apenas observava, buscando encontrar nele algo que realmente me assustasse. E, por mais que procurasse, não encontrava. Sentia lampejos de desejo de tocá-lo para perceber suas expressões. Nele havia algo que me reportava à dor. Imóveis, os três, cada um aguardando a reação do outro e foi ele quem se manifestou primeiro:
_Ashtar!!!... Layla!!!... Meus amigos, não me reconhecem?! _Sua voz era inconfundível e eu entendi porque não vira nada de feiura nele. _Não me reconhecem... é compreensível, com esta aparência que me encontro! _ Disse rancoroso... e continuou com uma voz um tanto fria: _ Sou eu, Abrahan Al-Haser!
Esperei ansiosa e sorrindo para dar-lhe boas vindas, enquanto ele e Ashtar se interrogavam, sedentos de explicações. E só quando se sentiram satisfeitos, senti os três olhos de Al-Haser pousados sobre mim. Era como se uma serpente tivesse seu olhar preso no meu. E era natural que eu sorrisse tanto... se com seus olhos originais ele percebia facilmente minhas reações, agora que tinha um terceiro olho, acima dos outros, tão roxo e brilhante, ele poderia melhor ainda desvendar minha alegria ao encontrá-lo. Ele estava horrível aos olhos de todos... mas, para mim, seria sempre belo.
_Minha querida Layla! Ashtar! _Falou tentando mudar de forma, para nos convencer de que era mesmo Al-Haser... e continuou: _Estive no "olho de um furacão", cai num lugar de terra batida e fui adorado como um "deus da morte", por homens de olhos puxados. Eles me disseram que procuravam incessantemente por uma cataiana que iria destruir o mundo e, como me acolheram, me senti na responsabilidade de cuidar deles, _disse tentando explicar suas ações, e prosseguiu:
_Recebi deles duas kamas poderosas, com cabos de osso e lâminas negras e, para retribuir, eu as dei à Shao Kan, um guerreiro gigantesco que descobri ser um avatar de um deus tigre e que um amigo da tribo convocou para ajudar a encontrar a tal cataiana e acabar com ela...
Neste momento, um espasmo me sacudiu inteira por dentro... sem que ninguém percebesse... e minha mente voou para longe. Eu me coloquei a pensar no que o destino me reservara. O que vivera antes de Zathar me fazer sua cria estava encoberto por um manto pesado e negro que ele mesmo colocara em minha memória... e me lembro de o ouvir dizendo que seria muito mais seguro para mim que eu me esquecesse de todo o meu passado. Mesmo assim, eu insistia em descobrir o que havia sob aquele manto... poderia ser a chave de tudo.
Al-Haser contou que partira para o oeste com os novos amigos e que guerreara ao lado deles por três invernos, até toparem com um grupo de Cavaleiros e Salubris. Fora, então, atacado por Yan Zen e conseguira matá-lo, cometendo o "amaranto". Disse também que fora impregnado por Yan Zen, que agora o perseguia querendo que ele se sentisse culpado pelo que fizera. O homem falava aos seus ouvidos dizendo que agora ele teria de fazer algo, que nem sabia o que era, para se redimir da culpa. Até lá, os espíritos que o protegiam iriam embora. Calada, eu observava Al-Haser... suas expressões se alternavam. Hora, ele se mostrava rancoroso, com uma expressão um tanto torpe... o ar frio e pesado. Hora, se mostrava com um ar de glória... mas, um tanto triste.
Tínhamos muitas coisas para conversar. Ele queria nos contar todas as suas venturas e desventuras... nós também a ele. Relatamos como fomos parar num mundo selvagem, o mundo das fadas, quantos momentos difíceis havíamos passado... como fomos capturados duas vezes e que a única ajuda recebida fora a de um Salubri de nome Isha. Ele tinha feito tudo pra nos tirar daquele mundo e nos retornar para onde estávamos agora. Achávamos que Isha teria sido mandado por Yan Zen. Isha era fugitivo de uma guerra contra um povo chamado "Tremere".
Enquanto falávamos, Al-Haser nos ouvia atentamente... e nós, a ele... contou-nos que depois de tantas lutas travadas fora arremessado nas terras selvagens e, lá, fora ajudado por um dos filhos de Abssimiliard, conhecido como "O Terceiro Filho" do Clã Nosferatu, "os Niktukku". Depois, fora atacado por um Brujah, quem sabe contratado pelo próprio Shao Kan para matá-lo...mesmo depois de terem lutado por tanto tempo juntos... porque ele, Al-Haser, fora descoberto como aliado daquela a quem Shao Kan queria exterminar.Fora uma luta dura e impiedosa... mas Al-Haser conseguira vencer o Brujah.
Eram muitas histórias a serem contadas... estávamos, os três, sedentos de saber o que acontecera e que poderia nos levar a desvendar toda a trama. Mas, de repente, Al-Haser caiu em transe... o terceiro olho brilhando muito forte em tons de roxo e sua luz clareando a tudo. O corpo se debatia convulso... eu imaginava se ele tinha visões naquele momento e estava certa. Quando voltou do transe, nos contou que havia visto Yan Zen copiando manuscritos de uma casa, que parecia ser do novo despertar de Set, em seis mil anos, onde ele consumiria toda a humanidade. E tinha visto também a Set, com o qual tentara lutar derrubando seus asseclas, mas que fracassara e fugira em seguida.
As visões de Al-Haser eram múltiplas. Ao mesmo tempo, vira Yan Zen ser contactado por Osíris, com feições mumísticas, que lhe mandara construir uma fortaleza ao norte, nas terras de Ravana, onde deveria aguardar pois, após cem anos, três viajantes lá chegariam. Após a chegada desses três viajantes (eu, Ashtar e Al-Haser... tudo levava a crer), Set usaria de toda sua influência e poder para destruí-los. Al-Hazer vira também Yan Zen construir, com ajuda de homens locais, uma fortaleza que se chamaria "Castelo de Tho". E, depois da nossa chegada, o ataque ao castelo e a sombra de Set por detrás, manipulando tudo.
Segundo a visão de Al-Haser, ao longe, Yan Zen preparara um ritual para evitar que fôssemos destruídos. Ao que tudo indicava, Osíris nos queria vivos. Yan Zen re-fortaleceria então toda a região com a ajuda das tribos locais e interceptaria o ataque de Shao-Kan para exterminar a mim, Layla. Quando vira Al-Hazer ao meu lado, entrara em fúria e o atacara também.
Assim que Al-Haser saiu do transe e nos contou toda esta história, decidimos caminhar rumo ao Egito. A noite estava quase no seu fim... precisávamos procurar um refúgio. Estávamos tão entretidos nas aventuras uns dos outros que nem vimos que as trevas estavam prestes a nos deixar. Rápido, encontramos uma caverna e resolvemos ali mesmo nos escondermos dos raios solares. Prosseguiríamos quando as trevas descessem novamente. Ao entrarmos, ouvimos um rugido forte... aquela caverna já possuía um dono. O rugido nos chegou por trás. Viramos imediatamente... a nossa frente, um animal magnífico, imenso e branco, com manchas pretas. Era um tigre megalodonte com imensos dentes de sabre. Ashtar e Al-Haser se prepararam rápido para a luta. Eu ainda gritei perguntando se era um macho, ou uma fêmea... mas eles nem me ouviram... e, após uma luta desesperada, mataram o animal. Estendido ao solo vimos que se tratava de uma fêmea.... as tetas cheias de leite. Eu olhava consternada... meus amigos deveriam ter prestado atenção antes de matá-la.... ainda tentei questionar com eles... mas, nem me deram bola. Corri então para o fundo da caverna à procura de filhotes, que certamente existiam... aquela era uma mãe ensandecida na defesa de sua propriedade e de sua prole... e descobri seis lindos filhotes, de pelo macio e muito branco... eu os queria a todos para mim. Mas, depois de muita discussão com meus amigos, Ashtar usou os poderes de seu clã, Gangrel, para evocar através do "Chamado de Noé", animais que adotassem os filhotes. E surgiram 13 tigresas. Algumas não se interessaram, outras sim.
Um a um os pequenos tigres foram todos indo embora. Foram levados pelas novas mães de criação que os amamentaria e os ensinaria a caçar e a se defenderem. Elas os mantinham presos, segurando-os com os dentes pela pele do pescoço, sem os machucar. E eu me apaixonei ao vê-las carregando-os com tanta delicadeza. Meus olhos estavam cheios d'água, minha garganta apertada... nunca vira uma cena tão linda... e já sentia saudades deles. Só restava um naquele instante e eu não consegui despregar meus olhos dele... e quando uma das últimas tigresas resolveu se aproximar para levá-lo, eu o peguei ao colo rápido e decidi que nada e nem ninguém nos separaria. Para alimentá-lo, usaria uma disciplina do meu Clã, que permitiria que eu transformasse meu sangue em leite para depois regorgitá-lo em sua boca. Assim fiz. Alimentado, o filhote adormecia satisfeito e não nos dava nenhum trabalho.
Enfim, rumamos ao norte durante mais seis luas. Ashtar caçava para que bebêssemos sangue e pudéssemos prosseguir viagem. Al-Hazer sentindo a presença de Set por onde passávamos e eu, encantada, alimentava meu pequeno grande bebê. Foi um tempo dos melhores que eu vivi, o daquela viagem... com meu filhote ao colo, os olhos presos na bela paisagem noturna que nem as trevas apagava, tamanha a riqueza das cores na flora pelo caminho.
Assim, prosseguimos até chegarmos a um vilarejo. As casas eram bem construídas, as primeiras que vira de alvenaria até então, com portas e janelas em madeira. Olhávamos atentos examinando todas as possibilidades de possíveis esconderijos dos raios solares e de alimentação suficiente... agora éramos quatro.
Bem à frente, depois de uma ribanceira, havia uma luz muito forte. Virei para procurar Al-Hazer e não o encontrei... ele tinha desaparecido como por encanto... eu me achava sozinha naquele instante com meu tigre... porque, Ashtar saíra também, se esgueirando entre as árvores, para descobrir que luz era aquela. Eu o segui de longe, na tentativa de desvendar que luz era aquela. Ashtar fora e voltara se esgueirando... e, ao me encontrar, me interceptou contando que naquele lugar havia uma construção piramidal em andamento e, ao seu redor, quatro obeliscos gigantescos apontados para o céu, cada um com cerca de 350 pés. Vários homens trabalhavam na construção. Havia muitos vigias e soldados. Ao fundo, sentado a um trono, estava um homem de feições estranhas, servindo-se de sangue por várias pessoas. O lugar parecia impenetrável por meios físicos.
Neste momento, Al-Haser apareceu e Ashtar contou também a ele o que vira. Sem sabermos porque, Al-Haser entrou em transe novamente. Instintivamente, eu e Ashtar nos jogamos sobre seu corpo, numa tentativa de cobrir a luz roxa e brilhante que irradiava de seu terceiro olho. Como sempre, as visões aconteceram. Al-Haser viu Set copilando manuscritos de uma casa. Manuscritos que teciam revelações sobre as primeiras noites, os segredos de Caim, suas palavras aos seus descendentes, e outros segredos. Depois que Set deixou a casa, Al-Haser viu Osíris entrar e a casa pegar fogo. Então ele andou por milhas, entrou num alçapão na terra, desceu por labirintos, evitou algumas armadilhas e entrou numa sala onde havia uma caixa retangular e transparente. Nesta caixa de material tão incrível porque não se podia ver suas paredes de tão transparentes, ele guardou os papéis.
Neste instante, Al-Haser saiu do transe. Ouvimos passos vindos da construção piramidal e eu meus amigos fugimos para a floresta. Continuar correndo e fugindo não seria nada esperto e resolvemos parar. Al-Haser entrou na penumbra para de lá ver o que acontecia... Ashtar parou em frente à uma árvore e resolveu aguardar os que nos seguiam... ele queria saber o que havia. Preocupada com a segurança do meu tigre, resolvi que subir numa árvore seria o melhor a fazer.... assim, galguei o caule agarrada ao meu querido bebê megalodonte que um dia teria dentes tão longos e poderosos como os tivera sua mãe. A determinação de salvar o tigre foi tanta que consegui ser mais rápida que era normalmente... e subi num piscar de olhos na árvore.
Os homens apareceram, cercaram Ashtar e o acorrentaram. Da penumbra, Al-Haser os atacou usando entropia, desfacelando seus corpos, transformando-os em podridão e pó. Por sua vez, Ashtar usou seu poder de metamorfose para se transformar em névoa e se livrar das correntes. Os homens, então, descobriram a mim e ao tigre e apontaram suas lanças na nossa direção. Para proteger o filhote, coloquei meu corpo entre ele e a guarda e quando eles arremessaram suas lanças eu as recebi sem, no entanto, permitir que acertassem meu tigre. Ashtar voltou então à sua forma física para impedir que um dos homens subisse na árvore para me pegar e derrubou-o. Al-Haser continuou da penumbra atacando a guarda. Várias lanças acertaram Ashtar. De cima, eu estava em desespero pelo meu amigo e por meu tigre, vi as armas atingindo Ashtar, vi quando ele com dificuldade conseguiu se levantar, vi quando se metamorfoseou em lobo e correu atrás de um último homem, que por pouco não o deixou em torpor pelo excesso de ferimentos.Por fim, depois de uma luta desesperada, quando meus amigos conseguiram me defender, decidimos voltar até uma pequena gruta, para descansarmos e nos curarmos dos nossos ferimentos.
Ao final de sete luas, caçando e nos tratando de todos os agravantes, já melhores, quando juntos arquitetávamos um plano para penetrarmos no palácio, fomos surpreendidos por Shao Kan e um mago, às nossas costas. Eles estavam atrás de nós... nos caçando. Shao Kan não perdeu tempo e pulou na minha direção, eu era a presa que ele tanto desejava abater... mas Ashtar o interceptou e isto lhe custou uma das mãos. Shao Kan a decepou e quase decepou a outra, deixando Ashtar em frenesi. Todavia, meu amigo pulou em seu pescoço e, enfiando nele seus dentes poderosos sugou seu sangue. Al-Hazer aproveitou então para atacar o mago, mas seus ataques quase não produziram danos. Teria o mago um escudo mágico de proteção? Eu pensei que sim e, horrorizada, vi quando ele arremessou Al-Haser contra uma das estalagmites da gruta, e depois quando meu amigo caiu ao chão. Não havia tempo a perder... precisava aproveitar o momento, de Ashtar agarrado ao pescoço de Shao Kan, para retalhar o corpo do meu inimigo através de minhas artes ocultas, o que não surtiu muito efeito, porém. Ashtar continuava engalfinhado com Shao Kan. Eu conhecia muito bem a coragem e a força do meu amigo. Ele já salvara minha vida tantas vezes... eu devia tanto a ele... Al-Hazer continuou batendo no mago, mas acabou entrando em frenesi. Então o agarrou com toda a sua força e sugou todo seu sangue. Ashtar conseguiu fazer com que Shao Kan caísse e também bebeu até a última gota de seu sangue. Eu estava atônita... era inacreditável... quando Ashtar e Al-Haser pararam de beber o sangue dos nossos inimigos, deixaram seus corpos ressequidos, sem músculos e órgãos internos. Deles só restaram peles e ossos. Muito depois, Ashtar acordou incrivelmente mais forte... e muito mais alto... quase tão alto quanto Shao Kan, o antigo corpo físico já refeito. Quanto a Al-Haser, tinha os símbolos que cobriam seu corpo brilhando muito.
Al-Haser viu o que o mago viu. Soube o que o mago soube pelo primeiro filho de Arikel... que uma cataiana destruiria o mundo... e que o mago deveria ajudá-lo. O primeiro filho de Arikel, Tammaruz, disse que o terceiro filho de Arikel, Zathar, que tinha sido enviado para matar a cataiana, tinha sido destruído por tê-la tornado uma cainita. O mago então convocara o avatar de Shao Kan e recebera uma premonição em sonhos que o "deus da morte" viria ajudá-lo. Quando este aparecera, três noites depois de convocar Shao Kan e receber a visão, deu-lhe de presente duas kamas cerimoniais. Quando Al-Hazer desaparecera, depois da batalha contra Yan Zen, o mago tentara localizá-lo e descobrira em seus ritos que ele não era o deus da morte, e então partira para caçá-lo.
Ashtar viu o que Shao Kan viu: ele era o avatar de Shao Kan, o Deus-Tigre, caçador dos impunes e desonrados. Ele tinha sido convocado pelo mago para ajudá-lo à caçar aquela que destruiria o mundo. Fora dito a ele que o deus da morte viria para ajudá-los... para Al-Haser e Ashtar estava tudo explicado.
Depois que meus amigos se curaram, decidimos ir ao castelo. Cada um de nós desenvolveu um "poder oculto". Al-Hazer decidiu nos transportar através do mundo entrópico, e proteger-nos com um escudo de entropia. Era um mundo angustiante e aterrador, mas seguimos por ele e, por ele, invadimos o local... mas, só entramos no mundo físico já dentro do complexo de labirintos. Al-Haser, com alguma dificuldade, se lembrou então de todos os passos que vira Set dar em suas visões... assim, foi relativamente fácil evitar as inúmeras armadilhas, até chegar numa sala. Era um aposento quadrado, sem nenhuma janela, sem nenhum móvel. As paredes, o teto e o chão, tudo era de blocos de pedra cinza. E, no meio da sala, sobre uma pequena coluna, estava lá a caixa transparente que guardava os pergaminhos.
Paramos perto da porta, com medo de quebrar o padrão local e desta forma acionarmos as armadilhas. Decidimos, então, que seria melhor apenas esfacelar a ordem da caixa. Ashtar tinha poderes para isto e transformou a caixa em areia. Neste instante, a porta se fechou atrás de nós e fomos aprisionados no aposento... tudo começou a desabar. Ashtar tentou inutilmente conter a ordem, mas não conseguia. Al-Hazer o ajudou convocando um escudo de tropia afim de nos proteger, e eu usei pela primeira vez um muro de vida ao nosso redor para evitar a destruição de todos. De repente, fomos arremessados num saguão, onde um homem mumificado estava sentado num trono. Ele se levantou, nos olhou e começou a falar... ele não abria a boca, porém sua voz ecoou pelo salão, e pudemos entender cada palavra, por mais que nada soubéssemos daquele idioma. E ele disse:
_Vocês são aqueles protegidos pelos Antigos... Sejam bem-vindos! Sou Osíris. Procurei por vocês quando pressenti o peso de sua morte chegar. Hórus _disse apontando para um homem forte que trajava uma toga pequena e branca, e portava uma alabarda e uma máscara de falcão sobre a cabeça _foi rápido ao resgatá-los do Labirinto de Set e traze-los até a mim. Muito já ocorreu, mas os Antigos me advertiram que ainda não é a hora de dizer qualquer coisa. Eu fui incumbido de protegê-los, e assim o farei. Bom, peço-lhes que descan...
Neste momento, um enorme estrondo ecoou pelo saguão. Hórus brandiu um grito de guerra e correu até uma enorme porta que se abriu, revelando um ataque de forças titânicas. Set estava lá, sentado logo atrás dos soldados que atacavam o templo, comandando forças místicas contra as forças de Osíris.
_Não, não pode ser... _diz Osíris sem entender... _ Set conseguiu adentrar os muros espirituais! Rápido, não temos tempo a perder! Se ele conseguir destruir vocês, não haverá um novo começo. Não, não há tempo para explicações, confiem em mim!
Dizendo estas palavras, Osíris nos guiou por uma série de corredores, até chegarmos a uma sala, onde havia um pequeno portal de pedra. Neste portal, Osiris desenhou alguns símbolos com barro.
_Esta é a única maneira de tirá-los daqui, seja como for! Eu não sei onde este portal vai dar, mas sei que os Antigos os protegerão em sua viagem. _O portal de pedra começou a brilhar, deixando surgir no seu centro um prisma de luz azulada. _Vão, partam!
E nós atravessamos o portal... Nossos corpos doíam muito... dores lancinantes subiam pelas nossas colunas vertebrais até alcançarem nossas almas... bem no fundo delas... como se milhares de lanças minúsculas penetrassem pela nossa pele, queimando lá dentro. Um tempo depois, que não consegui decifrar quanto, conseguimos abrir os olhos.
Estávamos em uma escadaria imensa. Levantando os olhos, podíamos observar uma entrada e símbolos egípcios desenhados em enormes placas de pedra, enfeitando inclusive uma entrada à frente. Sabíamos que cada um daqueles símbolos representava algo muito importante. No pouco tempo que estávamos naquele lugar, descobrimos que aquele povo não desenhava por desenhar... não eram apenas artes... não eram simplesmente enfeites... eram sinais. Notamos também uma enorme movimentação de pessoas nas escadarias. As palavras de Osíris sobre "os protegidos dos Antigos" ainda pesava sobre nossas cabeças, e uma leve sensação de não estarmos em casa assolou a cada um de nós.
Instintivamente, olhei ao meu redor procurando pelo meu filhote, que já não era mais um filhote. Ele já estava crescido, estava forte... soberbo... magnífico. Já tinha se transformado num belo espécime adulto de tigre e eu nem percebera... não percebera nem que suas presas de sabre saíam de suas mandíbulas e se projetavam fortes e ameaçadoras para fora. Ele estava lá, do meu lado esquerdo, como sempre, sem que eu jamais o tivesse ensinado que era aquele o lugar onde ele deveria estar. Seus olhos amarelados se detiveram nos meus de uma forma muito especial... pareciam querer me confortar ao perceber lágrimas em mim. Eu não mais encontraria Zathar... mas, tinha pelo menos uma razão para continuar.
Desde que tornara o pequenino tigre meu companheiro, tentava em vão encontrar um nome para ele... na minha mente, um nome soava sem parar. Olhei para ele, tão belo e balbuciei baixinho:
_ Tien Kuei! _Satisfeito, ele se encostou no meu corpo e emitiu aquele som característico dos felinos, que sempre emitia quando deitávamos juntos para dormir... e eu não senti mais medo e nem dor.



O Colar Encantado


Depois de uma viagem de horas, a carruagem estancou diante da entrada de uma fortaleza. Os portões se abriram para a nossa passagem e entramos. Lá dentro, um castelo escuro e muito alto se erguia. Imediatamente descemos da carruagem e caminhamos na direção da porta de entrada. Após a uma ante-sala, deparamos com um salão imenso. Ao fundo, um trono e, sentado nele, um homem poderoso. Ele vestia uma armadura leve, negra e portava a maior e mais luzidia espada que meus olhos já haviam visto. Maior até do que a do guerreiro hostil da campina.
À volta, haviam muitos soldados e, à direita do trono, um homem coberto por um manto que não deixava à mostra seu rosto. Sua postura e lugar junto ao trono indicavam que ele possuía muitos poderes, como se fosse um conselheiro do Rei.Os soldados e os demais presentes à sala do trono mantinham-se curvos diante do monarca. Eu, me ajoelhei e abaixei a cabeça em sinal de respeito. Ashtar não se ajoelhou, mas se curvou numa leve reverência.
O Rei disse algumas palavras ao homem vestido com o manto e este pegou um colar e me ofereceu como presente. Agradeci com um sorriso, beijei o colar e o coloquei ao pescoço. Enquanto procurava algo que pudesse retribuir tanta gentileza, percebi que Ashtar recebera um colar semelhante e o colocara também.Eram colares idênticos e simples, de cordas finas trançadas, onde estavam enfiadas contas vermelhas parecidas com sementes, ou pedacinhos de madeira pintada. Em agradecimento ao presente, coloquei minha mão direita sobre o coração e fiz um gesto na direção do Chefe Supremo daquele lugar, como se quisesse dizer que meus sentimentos positivos, guardados no coração, seriam dele.
Imediatamente após, do trono, o homem falou algumas palavras ao outro do manto e gesticulou com os braços abertos em linha reta, para o centro. Em seguida, virou -os para baixo e, surpresa, tive a certeza que ele ordenara que fôssemos aprisionados. Neste instante, caímos paralisados ao chão. Nada no meu corpo se mexia, me sentia como se estivesse presa ao solo. Mais algumas palavras, e fomos arrastados pelos soldados através dos corredores do castelo até uma masmorra escura e úmida.
Lá dentro, pude perceber várias correntes pendidas do teto muito alto e algumas camas. Os soldados prenderam nossos pulsos às correntes e ficamos pendurados por elas. Algum tempo depois vimos entrar na masmorra o homem vestido com o manto. Ele trazia um livro, o abriu, começou a ler e gesticular com as mãos e os dedos longos e finos. Em seguida, começou a nos interrogar. Queria saber quem éramos, de onde vínhamos e qual o nosso objetivo ali.Me apresentei como Layla, A Filha da Noite, e disse a ele que tinha vindo do oeste do grande império. Mas, ele me olhou e disse irônico:
_Hummm... cabelos longos e negros, maçãs do rosto proeminentes, olhos amendoados, compleição física delicada... sem dúvida és uma nativa de Catai.
_Não sou quem pensas, Senhor, estás enganado. Estás tendo uma miragem.
Assombrado, Ashtar virou a cabeça na minha direção. Ele já conhecera minha verdadeira identidade, mas não era assim que eu me apresentava naquele momento. Entendemos, então, que os poderes daquele homem eram muito superiores aos que pensávamos, ele sabia quem eu era. A prova disso veio rápida:
_Tudo que vem acontecendo de negativo neste e noutros lugares, vem de ti, criatura. Um grande exército anda atrás da tua cabeça. Mais cedo ou mais tarde tua existência chegará a termo e ficaremos todos muito melhores do que estamos agora.
Antes que eu pudesse dizer algo, ele se dirigiu a Ashtar com as mesmas perguntas que fizera a mim e o meu amigo lhe disse quem era, onde era sua casa, e que tínhamos sido jogados naquele lugar pela força de muitos raios.Satisfeito com o que descobrira, o homem virou as costas e saiu. Eu pensei que pelo menos ali estaríamos protegidos dos raios do sol. Mas, por quanto tempo? Como fugiríamos?
Assim que fomos deixados sós na masmorra, uma voz soou às nossas costas:
_O que fizeram para aqui estarem acorrentados? Sabem que daqui não poderão fugir? Eu já nem me lembro mais de quanto tempo estou nesta masmorra.
A voz vinha bem atrás de nós, mas era impossível girar o corpo para ver quem nos fazia tantas perguntas na língua que tão bem conhecíamos.... estava escuro, muito escuro.
_Quem és tu que nos fala? Perguntou Ashtar. _Porque estás aqui?
_Sou Isha, da Casa dos Salubre, faz muito tempo que aqui estou. Tanto tempo que perdi a conta... é impossível fugir daqui sozinho... mas, agora, somos três... talvez possamos.
Meu amigo disse então:
_Sou Ashtar, um Gangrel.
A voz o interrompeu dizendo:
_Que tu és um Gangrel, não tinha dúvidas, vê-se por tua aparência. Tanto tempo aqui e meus olhos já se acostumaram à escuridão.
A conversa se alongou por mais um tempo. Ashtar informou de onde viera e disse que seu Senhor era Marduck. Ele parecia animado por encontrar uma possível parceria e disse:
_É verdade... agora somos três, talvez se torne bem mais fácil fugir.
Dizendo isto, começou a estudar as possibilidades de se soltar. Tentou algumas manobras, mas sem sucesso. Analisou, então, todas as formas e achou por bem puxar com toda a força a mão esquerda das correntes... ele quebraria o pulso, para se soltar. Pensou assim e agiu... virou uma cambalhota e arrebentou a corrente do teto, ficando de cabeça para baixo.
Com uma mão solta e quebrada, tentou um movimento acrobata jogando o corpo para cima, mas não obteve sucesso. Tentou várias vezes até que optou por forçar seu peso para baixo e acabou por conseguir desprender uma parte de pedra do teto onde estava fixada a corrente que o prendia. Eu ficava sempre muito assombrada com sua força de vontade e coragem. Ele era, sem dúvida, determinado. Nada o detinha... eu... me sentia impotente diante de tanta força.A dor que ele sentia era grande, eu sabia, mas ele jamais desanimava. Caminhou até onde Isha estava preso e o libertou puxando-o também pelas correntes para que se desprendessem do teto. Já livre, em agradecimento, o Salubre tocou sua mão quebrada e curou todos os seus danos, deixando meu amigo perfeito novamente.
Somente eu ainda estava presa ao teto. Com as manobras sucessivas de Ashtar e a força empregada em cada uma delas, o teto ameaçava a ceder. Se ele demorasse a me tirar dali, eu seria soterrada. Ele se concentrou então e, em questão de segundos, me arrancou do teto com correntes e tudo, agora estávamos os três livres. Mas o teto veio abaixo, desabando tudo sobre nós e por muito pouco não fomos soterrados.
_Sigam-me! Disse Isha. _Rápido! Só temos uma chance.
Seguimos o vampiro por corredores e vestíbulos escuros até chegarmos a uma janela imensa. Ele nos olhou e disse:
_Saltem, não há outra saída! _ E sem dizer mais nada, se jogou no buraco negro e sem fundo que se abria aos nossos olhos.
Por uns segundos exitamos, não sabíamos o que nos esperava lá embaixo... mas, se permanecêssemos na indecisão, seríamos presos. Assim, eu que ainda estava com as mãos ligadas às correntes, me agarrei ao pescoço de Ashtar que, esperando que encontrássemos algo que abrandasse nossa queda, se jogou atrás de Isha em meio à escuridão.
Foi um longo mergulho... o suficiente para dar tempo de pensarmos coisas. O que Ashtar tinha em mente, eu não sabia. A minha, estava preenchida com a imagem de Zathar. Ele estaria sempre comigo... e me lembrei dos seus ensinamentos, de como alimentara a minha fome pelo belo, me mostrando como cultivar as mais variadas espécies de flores em canteiros ao redor da minha cabana. E de suas palavras gentis, enquanto me observava trabalhar com a terra, dizendo: “Minha criatura, constrói para ti um jardim rodeado de canteiros... preencha teu olhar com todas as flores que tua visão puder alcançar, pois não convém privar-se de nenhuma beleza”.
De repente, meu corpo e o de Ashtar cortaram um espelho d’água e mergulhamos fundo, bem fundo. Segura ao seu pescoço eu mal podia ajudar meu amigo a nadar. Entretanto, ele fez algo por mim, mais uma vez, e ainda por algum tempo, até emergirmos numa lagoa. Lá na frente, Isha já atingia a margem e corria para uma floresta que se estendia ao fundo. Seguimos seus passos e entramos mata a dentro. Em terra firme, tirei os braços do pescoço do meu amigo e pedi que ele me quebrasse as correntes. Ele se concentrou para não me ferir, sabia quanta força teria que usar para fazê-lo. Minha sina seria estar para sempre acorrentada????
Agora, o mais premente era retirar aquele maldito colar... mas ele estava colado à nossa pele e quando o tocávamos ele nos queimava. Ashtar se livrou do que estava em seu pescoço, puxando tudo, queimando as mãos e o pescoço, destruindo o colar. Roguei que retirasse também aquele presente maldito que estava em meu pescoço e que possuía o encanto de neutralizar meus poderes. Para tanto, direcionei seus passos um a um. Pedi que usasse uma de suas garras para cortar com delicadeza os fios de algodão trançados, que passava entre as contas. Assim ele o fez. Rompidos os fios, as contas cairam uma a uma sucessivamente. Mas ainda haviam cerca de 10 contas que estavam coladas ao meu pescoço.
_Não tenha medo de me ferir, meu amigo, use uma de suas garras, a mais fina delas, corte e retire a pele da minha nuca onde estão presas as contas. Ele me olhou indeciso... era rude como uma fera, mas laços fortes já nos mantinham ligados e ele receava me machucar. Fui incisiva, no entanto, e o convenci que precisava me livrar daquilo rápido. Com a ponta de sua garra mais fina, ele cortou e separou a pele detrás do meu pescoço e a retirou junto com as contas. Seus olhos brilharam ao ver meu sangue... mas ele se deteve.
Uma vez livre de tudo, corremos entre as árvores, eu tentando encontrar Isha, que estava distante e Ashtar dizendo: _ "correrei atrás da maior criatura que eu encontrar". Ele estava com fome e bastante queimado pelo colar, pecisava se fortalecer. Eu pensava que não podíamos nos perder de Isha. Só ele poderia nos ajudar. Correndo, batemos em algo que parecia uma pequena colina acinzentada... era um elefante gigantesco. Ele tinha quatro presas imensas do mais puro marfim, uma tromba enorme e parecia distraído se alimentando das folhas nos galhos mais altos das árvores. Nos escondemos entre as árvores para decidir o que faríamos...
Ashtar então se agarrou à uma das pernas do paquiderme e subiu até sua barriga... tentou cortar o couro do animal para alcançar seu interior e matá-lo, mas o couro era muito duro e espesso. O elefante começou a urrar. Percebendo quanto era duro o couro do animal, Ashtar subiu até sua cabeça e rasgou seus olhos.
Desesperado, ele gritou de dor e começou a bater a cabeça, arremessando-a contra o caule de uma árvore enorme e de tronco muito grosso. Ashtar teve que se segurar para não cair. Muito sangue jorrava através dos olhos do paquiderme. Ashtar acertou-lhe golpes fortíssimos, mas ele não caía. Ao longe, ouvíamos urros semelhantes ao dele e sentíamos a terra tremer sob nossos pés... uma manada de elefantes, talvez tão grandes e fortes quanto aquele vinha em nossa direção.Isha surgiu de repente, tocou a pata do animal com a mão o neutralizou e fez com que tombasse finalmente.
O paquiderme caiu ao solo fazendo grande barulho. Pequenos animais se assustaram e deixaram o local imediatamente. Aves nos galhos das árvores voaram rápidas para longe e o sangue jorrou do corpo inanimado.
Neste momento a terra começou a tremer... Parei por um momento para discernir o que acontecia, e vi uma manada de elefantes tão grandes quanto aquele que jazia no chão. Eles vinham para clamar pela vida de seu possível líder. Então, saímos as pressas. Ashtar, metamorfoseado em corvo me levava consigo. Um dos elefantes quase nos alcançou na subida do vôo, por pouco nos derrubou. Isha permaneceu quieto no local, escondido debaixo de seu corpo. Aos poucos, os elefantes reunidos ao redor do companheiro morto, foram se afastando, com urros tristes pela perda de um dos seus.
Meus amigos decidiram então se alimentar. Há muito tempo faminta, pensei em me aproximar e fazer o mesmo, mas a expressão no rosto deles não era das melhores. Permaneci observando de longe. Eu tinha que acalmar a besta dentro de mim para não sair correndo e me jogar sobre o animal, como eles se jogavam. Era uma arte controlar a besta quando ela se enfurecia. Mas, naquele momento, muito a contragosto, me deixei levar pelo desejo de sangue e minha necessidade de sobrevivência falou mais alto. Corri, então, na direção do alimento como nunca havia feito antes.Era um sangue horroroso... seu gosto era horrível, jamais provara algo tão ruim... mas eu precisava continuar viva.
Fortalecidos, fugimos rápido. Reunidos, decidimos que a única saída seria voltar ao palácio. Pensando assim, mergulhamos fundo no espelho d’água do lago e submergimos. Isha seguia à frente como sempre. Na nossa direção, crocodilos gigantes, peixes disformes e criaturas que jamais havíamos visto... se aproximavam ferozes mas, inacreditavelmente, não faziam nada ao chegar perto de nós e, apenas, nadavam noutra direção
Isha nos fez novamente o sinal para subirmos à tona, e nadamos para a superfície. Lá em cima, nos vimos num dos fossos do palácio. A noite estava mais escura do que todas as outras e poderíamos nos entrar sem sermos vistos pelos vestíbulos. Mas, à entrada do palácio, guardando a porta principal, estava um dos soldados. Ashtar estava tão determinado a fugir dali em segurança que se lançou sobre o homem e num golpe certeiro o degolou.
Nos esgueirando entre as sombras, entramos no palácio, de sala em sala, entramos em uma onde haviam alguns soldados. Adentramos por uma porta traseira e não fomos vistos. Mas, por infelicidade, Isha pisou em algo que nos denunciou e fomos descobertos. Ele estava bem à frente e pode correr para fora do aposento. Nós, no entanto, ficamos ali frente a frente com os soldados.
_Pegue a mesa que está no centro, Ashtar, gire-a na mão e procure atingir o maior número possível deles. Eu disse isto e aguardei sua decisão. Ele bem que tentou, mas era uma mesa enorme, maciça, pesada demais, até para alguém como ele que conseguira acabar com um elefante gigante. Então ele a quebrou ao meio e arremessou uma de suas metades, na direção dos guardas. Alguns caíram, outros conseguiram desviar. Isha voltou e paralizou um a um ao colocar sua mão na direção de suas cabeças. Ele os paralizava e Ashtar os abatia. E nos vimos livres, para correr para outra sala.
Lá dentro o homem do manto nem teve tempo de esboçar qualquer movimento, pois Ashtar se jogou para cima dele rápido que nem uma flecha, enquanto Isha roubava do mago um amuleto que ele trazia sempre consigo e o livro de magia que havíamos visto ainda na masmorra. Rapidamente, Isha abriu o livro e apontando o amuleto na nossa direção disse as mais doces palavras que poderia desejar ouvir:
_Querem voltar para casa? Ashtar imediatamente disse que sim e encostou sua mão na mão do vampiro Salubre. Em seguida, ele olhou para mim e estendeu a mão na minha direção. Eu a toquei receosa e ele me apressou... nada mais vi... fomos teletransportados
Estávamos, de repente, andando em uma campina, em meio a uma selva, completamente descansados e sem nenhum temor. Parecia que, finalmente, caminhávamos de volta para casa. À nossa frente, um homem de pele fosca e negra como carvão, com o corpo coberto por símbolos variados, face desfigurada e horrenda, sem pálpebras e lábios. Acima dos olhos negros como o ébano, um terceiro olho, este com pálpebras normais e roxo... trajava um manto todo rasgado e olhou fundo em nossos olhos...




Transpondo o Portal da Umbra


Quando a terra começou a tremer, uma imensa bola de energia, totalmente negra e opaca, que tremulava com milhares de raios a seu redor, sugou tudo para dentro de si, num força gravitacional violenta. Fiz o que pude, para me salvar, mas fui tragada também. Desesperada, tentei me agarrar a qualquer coisa que me parecesse firme, mas nada e ninguém escapou da força que nos engolia e, todos que ali estávamos, passamos para outro plano.
Eu não parava de pensar no meu cavalo Chenar e nos meus amigos Abrahan Al Hazer e Ashtar. Qual seria o nosso destino? Eles eram tão queridos... tínhamos tão pouco tempo de convívio e eles já faziam, definitivamente, parte da minha vida. Meus últimos pensamentos, no entanto, foram para Zathar, o Meu Senhor que me presenteara com a existência perene. Agora, que tudo parecia estar findo, minha mente voava em busca do Meu Amado Criador, para que ele me mostrasse uma saída. Entretanto, por mais que eu suplicasse sua ajuda, ele não vinha ao meu auxílio. Não haviam respostas. E meu corpo girou e girou num redemoinho sem fim, preso à tempestade de raios.
Eu não sabia precisar o tempo, mas era tudo muito lento. Até que vislumbrei três mundos distantes. Senti que poderia escolher um e escapar por ele, só precisava escolher qual.
O primeiro era uma savana. Os homens que alí viviam tinham seus corpos cobertos por pinturas de cores variadas, com predomínio do branco. Seus traços eram grosseiros e eles portavam lanças enormes.
Campinas verdejantes, cercadas por florestas temperadas formavam o segundo caminho. Seus habitantes tinham os corpos cobertos por togas. Os traços eram finos, a pele morena e os cabelos longos, lisos e brancos.
O terceiro mundo tinha o chão de terra batida. Uma pequena aldeia, assentada em tendas feitas com couro animal, era habitada por homens que montavam grandes cavalos e exibiam espadas brilhantes presas à cintura.
Qual dos três caminhos seria melhor para a minha sobrevivência? Qual deles deveria ser o meu destino? Ou deveria voltar para buscar meus amigos? Por mais que temesse a tempestade de raios, não poderia deixá-los para trás. Já estava prestes a escolher um dos caminhos, quando minha intuição me ordenou sair em busca de Ashtar.
Ele era grande e forte, mas não parecia ter poderes mentais como os de Abrahan Al Hazer. Este saberia o que e como fazer para se livrar do infortúnio em que nos encontrávamos, eu não precisava me incomodar com ele. Assim pensando, dei as costas para a savana, que me parecia ser o melhor destino, e parti de novo entre os raios à procura de Ashtar.
Quando encontrei meu amigo, nos alegramos. Juntos, seguimos pela Umbra até encontrarmos um lugar mais calmo e, de lá, vislumbramos campinas verdejantes, com enormes florestas e para lá fomos arremessados como flechas. Uma longa jornada iniciamos. Andei em linha reta por muito tempo, levando Ashtar, metamorfoseado em corvo, pousado sobre meu ombro esquerdo. Dali ele poderia ter uma visão melhor dos perigos que pudessem nos ameaçar.
Seguindo sempre em frente, deparamos ao longe com algumas pessoas ao redor de uma fogueira. Mas, estavam tão distantes que não podíamos perceber quem eram. Nenhum de nós tomava uma decisão sozinho, discutíamos sempre o que fazer. Assim, resolvemos nos aproximar mais.
Pareciam andróginos. Seus traços eram harmônicos e de aparência nobre. Os olhos eram amendoados e os cabelos longos, escorridos e loiros. Vestiam túnicas alvas, de tecido delicado, presas por faixas à cintura. Entre elas, uma mulher, que só diferia dos homens pelo volume dos seios que empurravam o tecido da túnica. Ao nos ver, ela deixou os companheiros e entrou numa das casas que havia ao redor. De lá, voltou momentos depois, seguida por um homem bastante alto, de extraordinária beleza e carisma impressionante. Ele vestia uma armadura cinza e brilhante sobre a túnica e trazia uma espada luzidia e azulada, enfiada à bainha trabalhada.
Me aproximei e fiz uma reverência respeitosa e em silêncio. Não adiantava falar porque a única língua que eu falava era a de Catai e a deles, nada tinha de parecido com a que meu antigo povo falava. Ele não se moveu diante da minha reverência. Mostrou-se inclusive hostil. Disse meu nome, mas ele não entendeu ou fingiu que não entendia. Pedi, então, com gestos delicados, que nos permitisse descansar, para que pudéssemos seguir viagem. No entanto, tudo que ele fez foi se afastar do grupo comigo e olhar forte dentro dos meus olhos. Seu olhar era inescrutável. A não ser por Zathar, meu criador, jamais vira um homem tão belo... Todavia, ele era muito duro em seu olhar, deixando claro para mim, mesmo que não falássemos um o idioma do outro, que não éramos bem-vindos.
Eu estava determinada a suplicar por uma hospedagem, mas ele adivinhou meus pensamentos e, colocando a mão na bainha da espada, fez sinal para que eu fosse embora rápido daquele lugar. Tentei mais uma vez me comunicar, mas ele me olhou secamente, puxando com firmeza a espada. Sendo assim, não havia outra coisa a fazer. Contrariada, dei-lhe as costas e prosseguimos nossa jornada.
Caminhamos até chegar a uma floresta densa e escura. Ashtar queria entrar, eu não. Preferia seguir em frente. Então nos separamos, obedecendo o que nossa mente determinara.
Eu caminhava pensando na imensa solidão de quando vivera eremita na floresta do norte de Catai, até que Zathar me encontrara e me fizera sua criatura. De vez em quando, voltava meus olhos para trás em busca de Ashtar, mas nem sinal do meu amigo. Não avistava nenhum corvo, nenhum tigre, nenhuma névoa. Depois de muito caminhar, algo passou por mim em disparada, e, subitamente, parou. Era meu amigo finalmente.
Ashtar me contou da comunicação que tivera com um animal estranho, aquela era uma floresta encantada. O animal lhe dissera que deveríamos seguir em frente, em busca de um outro mundo. Lá, com certeza, não seríamos bem recebidos, era uma terra de povos cruéis... mas, seria a única forma de encontrar o caminho de volta. Então, seguimos na direção indicada pelo animal, até nos depararmos com um muro muito alto e que se estendia além do que nossa visão alcançava. Ao centro dele, um imenso portão, dividido ao meio, se arredondava, ultrapassando sua altura. Em cada uma das partes, um grande símbolo numa língua totalmente estranha a nós dois.
O que devíamos fazer? Discutimos as possibilidades e optamos por entrar. À frente, Ashtar colocou toda sua força para abrir o portal que, leve como papel, se escancarou para nossa entrada. Surpresos e receosos entramos. Do portal para dentro, uma energia agitada regia a atmosfera. Diante de nós, uma pequena clareira se estendia separando-nos da floresta que se erguia imponente e viva. Sons incompreensíveis chegavam até nossos ouvidos e aumentavam à medida que nos aproximávamos.
Assim que começamos a caminhar entre as árvores, os sons se multiplicaram e caules e troncos começaram a se mover, galhos imensos tentando nos aprisionar como se fossem serpentes enlaçando nossos braços e pernas.
Eu não tinha medo. Confiava no poder de luta do meu amigo. Com certeza, Ashtar não permitiria que nada de mal nos acontecesse. Ele era forte e corajoso. Nada o detinha. Ele nada temia. Mas, por mais que ele lutasse, fui aprisionada por um galho enorme que envolveu minhas pernas e braços, me imobilizando por inteira.
Eu sabia que não adiantava resistir e que deveria me deixar ficar assim, até que vimos as criaturas que habitavam aquele lugar. Imediatamente, Ashtar se metamorfoseou em névoa e desapareceu. As criaturas se aproximaram, eram seres esverdeados e muito feios. Vestiam roupas feitas com pedaços de couro e usavam chapéus grotescos do mesmo material. Por instantes, observei com atenção sua chegada até nós. Eu pensava que poderiam ser amistosos, quando dois deles chegaram até a mim. Não houve nenhuma conversa. Apenas me acorrentaram e fui levada como prisioneira floresta adentro.
Bem distante do portal de entrada, vi o que parecia ser um muro de estacas pontudas, feitas com troncos de árvores. Lá dentro, um homem maior e ainda mais feio que os outros estava sentado num trono feito de ossos. Sobre sua cabeça, o crânio de um leão enorme. Paralisada, eu olhava a movimentação dos outros homens, trazendo consigo um grande e fervente caldeirão, onde colocavam ingredientes que me pareceram temperos. Eles me olhavam e riam me fazendo entender que eu seria colocada dentro daquele caldeirão para ser cozida e, possivelmente, comida.
Juntei as forças que me sobravam e me concentrei no homem sentado ao trono. Quando o atingi em cheio com meu olhar ele bateu em disparada, deixando tudo para trás. No entanto, os outros continuaram sua tarefa de preparar o banquete. De súbito Ashtar reapareceu, já na sua forma original. Olhei para ele desesperada e ele começou uma investida contra um deles. Assim, durante muito tempo, meu amigo lutou e lutou para me salvar daquela situação absurda. Um a um os homens foram caindo, até acabarem todos no chão. Faminto, Ashtar sugou o sangue de cada um deles... ele precisava se alimentar.. para repor suas forças. Em seguida, mergulhou na terra desaparecendo. Antes, porém, quebrou as correntes que me mantinham presa e me libertou.
Livre, mas ainda com as correntes nos pulsos e tornozelos fiquei só naquele lugar, buscando explicações de quem eram aqueles seres, quais eram seus costumes e de como viviam ali. No entanto, não havia muito a descobrir. Eram seres rudes e atrasados, seus hábitos não mostravam muito. Só me restava esperar por Ashtar que não voltava de seu mergulho na terra. Eu estava cansada de esperar, mas nada podia fazer. Lá fora, as árvores serpentes aguardavam silenciosas e eu aguardei por muito tempo ainda, até que Ashtar ressurgiu.
Saindo finalmente daquele lugar grotesco, andamos ainda um pouco pela floresta, escutando barulhos estranhos
Metamorfoseado numa ave imensa, meu amigo alçou-me pelas correntes e sobrevoamos a floresta. Atravessamos todo o lugar, voando sobre as árvores que se retorciam lá embaixo, prontas para aprisionar-nos caso eu me soltasse, até que fomos parar numa estrada deserta, ali perto.
E foi então que vimos uma grande carruagem, puxada por um cavalo maior do que estávamos acostumados a ver. A visão do cavalo levou minha mente até Chenar. Eu estava preocupada com meu carniçal, mas Ashtar estava atento e curioso ao ser que guiava a carruagem.... e resolveu que o melhor seria interceptá-la e fazer o condutor prisioneiro. Mas, precisávamos conhecer sua aura e, para tanto, eu tinha que agir rápido. Depois de tanto trabalho comigo, era natural que eu me dedicasse àquela tarefa com prazer.
Assim pensando, em retribuição às inúmeras vezes que meu amigo me carregara nas costas, dirigi-me sorrateira à carruagem e me posicionei de forma que, mesmo de uma distância maior, pudesse descobri quem era aquela criatura. Era a aura de um ser mágico, de grande rancor. Ao mesmo tempo, Ashtar pulou sobre o homem, derrubando-o da carruagem com um soco fortíssimo que, se não o matou, ao menos quebrou seu pescoço. Neste instante, um outro saiu de dentro da carruagem e saltou sobre o meu amigo.
Eles lutaram duramente. Meus olhos acompanhavam Ashtar sem deixá-lo um só momento, buscando o exato instante de intervir de alguma forma em sua ajuda se fosse necessário. Foi quando percebi que seu adversário trajava uma armadura negra e uma espada de um azul brilhante e, assim como o cocheiro, tinha pele negra. Seus cabelos eram prateados como a lua, e as orelhas pontiagudas.
Intrigada, pensei que havia uma certa semelhança entre eles e o guerreiro que parecia ser o líder daqueles que encontramos ao redor do fogo quando começamos a andar pela campina... sim, aquele mesmo que puxara a espada para mim e não nos dera acolhida... As diferenças estavam por conta de detalhes. O que estava na campina tinha a pele muito clara, seus cabelos eram loiros e trajava uma armadura cinza brilhante. O passageiro da carruagem trajava uma armadura negra. Mas, ambos tinham cabelos, escorridos, os olhos amendoados e traziam consigo espadas azuis cintilantes. Que povo hostil seria este?
O duelo durou pouco tempo, os golpes eram incrivelmente velozes. Eu me orgulhava de meu amigo Ashtar, ele era uma fortaleza e seu poder de fúria ajudou a tombar o homem ao chão. Em seguida, disse ao guerreiro que nos ajudasse e ele respondeu com palavras estranhas, mas meu amigo insistiu e ele acabou nos levando numa longa viagem rumo a um grande e reluzente castelo.Tombado ao chão, na estrada, com o pescoço quebrado por um golpe de Ashtar, ficara o condutor da carruagem.




O Castelo de Toh




Ashtar e eu estávamos muito preocupados com a demora de Abraham Al Hazer. Ele não deveria demorar tanto. Eu cuidava de seu corpo físico, como se fosse o meu, mergulhando-o no fundo do rio e cobrindo com lodo quando as trevas estavam para sair e, à noite, logo depois que o sol se punha, tirava-o de lá, lavava-o cuidadosamente e me entristecia com a imagem que sobrara dele. Sua cor estava a cada dia mais pálida, agora já num tom esverdeado e ele me parecia estar se desfigurando. Onde estaria meu amigo? Porque não retornara?
Zathar teria algo a me dizer, então elevei minha mente até Ele, pois Ele sempre sabia o que deveria ser feito e me ensinara muito. E foi aí que me lembrei de uma vez que A Noite, minha Mãe, me aparecera em sonhos dizendo que viesse ter com ela sempre que estivesse em situações de grandes dificuldades. Concentrada no que devia fazer, usando meus poderes de Cultura de Vampiros, resolvi então preparar um ritual que poderia trazer Al Hazer de volta. Para isso, precisaria de uma imensa força de vontade e coragem, porque deveria traze-lo através do sofrimento, não apenas dele... mas, sobretudo, meu.
Para tanto, pedi a presença dos moradores do povoado, que me viam quase como uma divindade e do meu amigo Ashtar. Assim, quando as trevas estavam exatamente em seu ponto de maior força, nos dirigimos para o local onde a matéria de Al Hazer se encontrava. Ao redor do seu corpo físico, formei um grande círculo com fios de algodão trançados e, dentro dele, desenhei na areia três pentagramas invertidos: um as suas costas e os outros dois, um de cada lado do seu corpo. Dentro de cada pentagrama depositei uma pétala da Rosa Eterna, símbolo do meu Clã e, sobre cada uma, um espinho. Em seguida, tomei nas mãos uma tocha. Todo meu ser fibrilava. Não há nada que amedronte mais uma Criatura da Noite, do que a luz, tanto do sol, quanto do fogo. No entanto, cheia de coragem e do desejo de ver meu amigo de volta, prossegui. Com toda força da mente, invoquei a Mãe Noite:

Eu te saúdo, Oh Mãe!
Na Beleza das Três Pétalas
E no Sacrifício dos Três Espinhos da Rosa Eterna!
Tua filha invoca teus poderes, oh, Mãe!
E suplica que tragas o Espírito de Abraham Al Hazer
De volta ao seu corpo físico
Para o sucesso da missão que nos foi conferida.
Oh, Serpente!
Chave que abre os portais da Eternidade!
Só Tu, através da dor que agora acomete
Tua filha Layla
Podes trazer de volta Al Hazer ao mundo físico.
E Te louvarei para sempre, Oh Mãe!
Na Beleza das Três Pétalas
E no Sacrifício dos Três Espinhos da Rosa Eterna!

Com a tocha, ateei fogo ao cordão e, quando ele se propagou pelos fios trançados, formando um círculo de luz a nossa volta, eu entrei em desespero. O pavor foi tanto que se apoderou de todo meu ser, enquanto também eu também começava a queimar. Uma força enorme jogou-me para fora, em direção à mata, enquanto as labaredas cresciam. Quando acordei, ainda meio desfalecida, ouvia ao fundo um cântico e pensei comigo mesma que aquele devia ser o cântico da Mãe Noite, satisfeita pelo meu esforço. Ali onde fui jogada, fiquei até Ashtar me encontrar e descrever o que havia acontecido no círculo de fogo.
Ele também ouviu os cânticos e percebeu que vinham abaixo de uma elevação. Fazendo sinal para que eu me mantivesse calada, se aproximou do topo e se esgueirou entre a vegetação para observar. No entanto, não me contou quase nada. Somente que vira uma fênix, com extraordinária envergadura e asas muito brilhantes. E, antes que ela se esvaecesse no ar, meu amigo me tomou nos braços para que deixássemos aquele local imediatamente. Tínhamos que voltar ao povoado para pegarmos nossas coisas e meu cavalo. Depois, seguiríamos viagem rumo ao nosso destino, na tentativa de descobrir que mancha era aquela vinda do leste, tão negra e ameaçadora e que trazia tãos maus presságios para a região Norte. Assim sendo, seguimos naquela direção.
Pegamos o cavalo e seguimos através da mata, numa trilha escura e cheia de árvores. Em nossas mentes, Força de Vontade e Determinação. A noite estava alta e tínhamos um grande caminho rumo ao desconhecido. Eu seguia montada em Chenar, o carniçal que herdara de Abraham Al Hazer, acompanhada por Ashtar, que as vezes voava à frente, metamorfoseado em corvo, para reconhecimento do caminho. Foi quando percebemos bem à nossa frente uma carroça, no estilo das que eram usadas em Catai. Ela era puxada por um cavalo preso com cordas. A carroça ia a passos lentos e algo nela nos intrigou. Ashtar voou então bem à frente para ver quem estaria em seu comando e voltou dizendo que era um homem de olhos amendoados e pele amarelada. Deduzi que poderia ser um filho de Catai e pensei que aquele era um bom momento para que eu entrasse em ação.
Segui então apressada para alcançar a carroça e seu condutor, antes porém, voltei à minha forma física humana, para interpelar o homem e tentar ver quem era através de sua aura. Ao me ver, ele parou imediatamente, porém desconfiado e perguntou:
_ O que fazes andando sozinha numa noite escura como esta?
_ Salve, Nobre Senhor! Caminho em direção ao Norte, não muito longe daqui. Por favor, me diga, para onde segues?
_ Sigo para o Norte _ disse ele educadamente.
_ Oh, Senhor, estou muito cansada, venho caminhando há muito tempo e suplico pela tua bondade de me permitir seguir contigo em tua carroça, até meu destino que está no teu caminho.
O homem fez um sinal afirmativo com a cabeça e me deixou subir. Entrei na parte de trás da carroça. Dentro estava um jovem, também filho de Catai. De cabeça baixa estava e assim permaneceu. Mal me olhou e respondeu meu cumprimento secamente.Seguimos calados os dois. E, num momento que me pareceu adequado, abri uma fresta na cortina que fechava a carroça, como se fosse olhar a paisagem. Na verdade, o que pretendia era espiar a aura do homem. E o que vi, não gostei.Sua aura era negra, misturando-se continuamente com verde escuro e um branco muito pálido. Concluí, então, que ele era malígno, obcecado e vampiro, dos mais perigosos. Esperei passar algum tempo e disse-lhe:
_ Nobre Senhor, aqui eu fico, se não te importas. Me ajudastes muito, te serei para sempre grata por ajuda tão preciosa.
O homem parou e me deixou descer sem dizer nada, apenas acenou de leve com a cabeça e seguiu em frente. Então, pensei que tinha sido descuidada, deveria ter olhado também a aura do rapaz. Mas, nós que somos da Casa Toreador, muitas vezes nos perdemos devido as nossas emoções. O que estava feito não estava por fazer, e eu voltei para procurar Ashtar e Chenar, agora já na forma que Zathar havia me dado.
Quando encontrei meu amigo ele me olhou desconfiado. Me lembrei, então, que não fora nada esperta, ao me mostrar em minha forma verdadeira, quando me aproximei da carroça. Pela segunda vez eu errara aquela noite. Tinha tanto a aprender ainda....Contei logo a Ashtar o que vira na aura do homem e ele retrucou:
_ Se vamos seguí-lo, temos de ser cautelosos, esta criatura é por demais maligna. Continuamos, então, guardando uma distância que nos permitia ver sem sermos vistos. Assim eu pensava.De repente, uma flecha com a ponta em chamas atingiu meu companheiro pelas costas. Em pânico ele desapareceu na mata.
Como a sabedoria de Abraham Al Hazer nos fazia falta! Procurei as nossas costas de onde teria vindo aquela flecha e me deparei com, nada mais e nada menos, o jovem que viajava dentro da carroça. Esta já não era mais vista, no entanto. De pé sobre um dos galhos mais altos de uma árvore enorme, o rapaz já preparava outra flecha, que deveria ser para mim, sem dúvida. Neste instante, um espírito surgiu do nada, por trás do jovem arqueiro. Era a figura sombria, envolta numa pálida névoa negra, com as feições disformes já familiar para mim. Pela força que dela emanava, sabia que era Abrahan Al Hazer, que aplicou um soco no arqueiro, na tentativa de desequilibrá-lo, afim de que caísse da árvore. Mas, ele apenas titubeou e os dois ficaram frente a frente. Agora era minha vez de agir. Rapidamente, subi para galho da árvore e me postei atrás de Al Hazer. Eu precisava que o jovem vampiro olhasse dentro dos meus olhos e chamei sua atenção para isso.
Quando ele me olhou finalmente, penetrei meu olhar fortemente dentro do dele, o que fez com que ficasse extático. Totalmente em transe, pude extrair dele as informações que queria, descobrindo que o destino do homem que guiava a carroça era o mesmo que o nosso. Era o que precisava saber, agora teria que acabar com ele e escolhi a melhor forma. Cravei nele meus caninos e suguei todo seu sangue lentamente. Nossos corpos subiram plainando no ar, como se estivéssemos dançando ao som de uma melodia encantadora e prazerosa. Como descrever aquela sensação ainda inédita para mim? O prazer era intenso. Maior do que qualquer orgasmo que eu já tivera e parecia não ter fim, até que nossos corpos começaram a descer, ainda plainando suavemente, como plumas no ar.
Ele caiu inerte ao chão e eu, em êxtase a seu lado. Nada mais vi. Só acordei muito tempo depois. Ashtar já sem a flecha, me encontrara caída ao chão e me colocara sobre o lombo de Chenar, que trotava calmamente. Restos de sangue ainda escorriam pelos meus lábios e eu me sentia inteiramente revigorada, mas ainda meio zonza de prazer. Meus poderes estavam exacerbados. Fora a minha primeira Diablerie.
Quando fui capaz de entender alguma coisa, me lembrei de quando o espírito de Al Hazer nos aparecera materializado pela primeira vez, ainda no povoado. Agora, ele não mais se materializava, sua voz apenas ecoava no ar, nos aconselhando o que fazer. Desta vez, dissera que continuássemos a seguir para o Norte, mantendo sempre uma distância cuidadosa da carroça, ainda mais segura do que a distância que mantínhamos antes, pois agora o vampiro já sabia o que tínhamos feito. Contara também que, para ele, o "carroceiro" era um cavaleiro de armadura negra liderando um exército de guerreiros fortes e também de armaduras negras.
Foram muitas luas de viagem. Antes que o sol nascesse, embrenhávamos na mata à procura de esconderijos seguros. Quando a noite vinha, continuávamos nossa marcha rumo ao desconhecido, tentando descobrir o que fazia aquele vampiro, para se esconder dos raios solares. Ele parecia enfrentá-los sem medo, porque ao reiniciarmos nossa viagem, estava sempre muito à frente, fazendo com que concluíssemos que ele não precisava temer a luz do dia. Aquilo nos intrigou muito, jamais soubemos de algum vampiro que não precisasse se esconder dos raios solares, nosso maior inimigo. Ou, quem sabe sua carroça fosse à prova da luz solar e seu cavalo ensinado a seguir em frente, sem precisar ser conduzido. Mas, isto não importava agora, o importante era seguir em frente em direção ao nosso destino.
A longa jornada terminou quando nos deparamos diante de uma grande aldeia, com centenas de casas de barro construídas aleatoriamente e circundadas por um muro relativamente baixo, de pedra. Ao fundo das casas, uma construção gigantesca, com uma cúpula redonda e dourada e janelas enormes. Nunca vira nada tão grandioso. Parecia um castelo, daqueles que ouvira em histórias quando ainda era criança, mas pensava existir apenas na imaginação. Sua entrada era fechada por uma imensa e pesada porta de madeira, vigiada por guardas seminus e sem um só fio de pelo na cabeça e no corpo. Eles portavam lanças maiores que seus corpos. O muro, também fechado por um portal sólido e resistente, era guardado por guardas atentos.
Bem à nossa frente, o vampiro que parecia filho de Catai, deteve sua carroça diante da entrada. Conversou algo com os guardiões do lugar, que lhe abriram o portal, sem maiores problemas, fechando-o imediatamente após sua passagem. Lá fora, ficamos com nossas indagações. Al Hazer havia nos dito que se precisássemos de sua ajuda, deveríamos mandar-lhe um sinal. Eu deveria dançar enquanto Ashtar rugisse como um tigre. Assim fizemos e a voz de Al Hazer ecoou junto a nós, dizendo que tínhamos que seguir em frente. Nossa tarefa era entrar naqueles domínios, descobrir a quem pertenciam e avisar que uma grande e perigosa mancha negra vinda do Leste ameaçava sua paz. Devíamos também contar que o vampiro entrara com sua carroça sem nenhuma dificuldade. Por fim, tentar descobrir o mistério que se descortinava diante de nós. Tudo dito, sua voz desapareceu como havia surgido.
E assim foi feito. Nos aproximamos com cortesia dos guardas. Eram homens de pele bem escura, traços finos, e cabeças raspadas. Tudo levava a crer que eram hindus. Eu não falava sua língua, mas Ashtar que podia se comunicar com eles, falou:_ Eu sou Ashtar e esta é Layla, viemos de um povoado à Leste, no Vale de Kashmir. Queremos saber que domínios são estes e a quem pertencem. Os guardas conversaram entre si e um deles respondeu:
_ Este é o Castelo de Toh. Nosso guardião maior é o grande e sábio Yan Zen.
Pedimos permissão para entrar para um descanso e alimentação, a fim de seguirmos nosso destino rumo ao Norte.
Os guardas decidiram abrir o portal e nós entramos. Ashtar seguia à frente e eu, logo atrás, e desmontada, segurava Chenar pelas rédeas. Nos deparamos com inúmeras casas de barro, construídas sem nenhum alinhamento, com centenas de pessoas andando, algumas trabalhando, outras conversando. Tudo parecia um tanto pacífico. Nenhum vestígio do vampiro e sua carroça. Vasculhamos tudo à sua procura, mas nada encontramos e já podíamos sentir que breve as trevas partiriam. Precisávamos nos alojar em algum esconderijo seguro. Foi quando meu olhar cruzou com o do meu amigo e resolvemos que entrar no castelo seria a melhor solução.
Ao lado da imensa e pesada porta de madeira maciça, haviam dois guardas muito altos e musculosos. Eles permaneciam imóveis. Mais uma vez Ashtar foi meu intérprete dizendo a eles quem éramos e o que queríamos. Enquanto ele falava, usei meu poder de Presença, olhei fortemente dentro dos olhos de um deles, buscando tragar sua alma e ele, de imediato se sentiu aprisionado pelas minhas vontades e pela minha mente. O mesmo aconteceu com o outro. Perguntei tudo que queria saber sobre o Yan Zen e em tudo fui respondida. O nobre Senhor daqueles domínios era um poderoso nativo de Catai. Disse aos guardas que queria falar com ele, mas eles responderam que isto só dependeria de sorte, pois as vezes ele repousava durante muitas e muitas luas, sem interrupção. Em seguida, ordenei-lhes que abrissem a porta para entrarmos e eles a abriram de imediato. Então pensei: estes serão meus vassalos por muitas luas ainda. Antes de entrarmos, ordenei que cuidassem do meu cavalo, e o protegessem de qualquer mal enquanto lá estivéssemos.
Feito isso, entramos. Passamos primeiro por um hall e, em seguida, nos deparamos com um enorme salão redondo, rodeado por dezenas de portas. Precisávamos de um contato com Al Hazer. Abrimos, então, a última das portas. Era uma sala grande e inteiramente vazia. Ali estava ótimo para nosso ritual, então começamos. Ao som dos rugidos fortes de Ashtar, eu dançava, fazendo volteios e volteios. E assim permanecemos durante algum tempo, até que a porta ao fundo se abriu, e fez surgir diante de nós um ancião, de barbas e cabelos longos e muito brancos. Seus olhos eram por demais amendoados e as maçãs do rosto proeminentes. A pele era amarelada como os homens do meu antigo povo. Ele vestia roupas brancas e uma cinta dourada cingia-lhe a cintura. Seus pés estavam descalços.
Busquei o olhar de Ashtar, ele estava nervoso e discutiu com o ancião que queria saber, a qualquer custo, porque havíamos invadido seu castelo. Irritado, Ashtar disse que tivemos que usar de subterfúgios, porque os guardas não queriam permitir nossa entrada e que precisávamos contar a ele o que sabíamos. O homem olhou para Ashtar e disse:
_ Fui acordado do meu repouso por uma algazarra de sons. Quem és tu, criatura?
Ashtar se apresentou, conversou com o ancião e os dois discutiram, eu permaneci calada. Eles discutiram, e Ashtar saiu do local visivelmente irritado. Só aí, então, o homem olhou na minha direção e perguntou:
_ E tu, minha jovem, quem és?
Voltei meu rosto na direção daquele senhor e, olhando fixo em seus olhos, disse:
_ Me chamo Layla, Poderoso Senhor, sou a Filha da Noite.
Ele me olhou lentamente e disse em tom imperioso:
_ Abaixe tua Ofuscação e mostre-se verdadeiramente a mim, menina.
_ Sou Layla, Senhor, venho do Vale de Kashmir...
O ancião interrompeu minha fala e num tom enérgico repetiu:
_ Não avisarei de novo. Abaixe tua Ofuscação e declare tua verdadeira identidade!
Abaixei minha Ofuscação e a cabeça em atitude de respeito imediatamente e, com suavidade, respondi:
_ Meu nome é Pye-lem, sou da tribo dos XIA, filha de Zhang e Li. Vim de Catai, Senhor. Estaria eu diante do Nobre Yan Zen?
_ Sim, minha jovem, e porque aqui estás?
_ Viemos para avisá-lo que este lugar corre um grande perigo, Senhor. Uma imensa mancha negra caminha do leste nesta direção. Este castelo, e todos que aqui estão, serão destruídos se não fizeres algo. Os presságios que aqui trago não são os melhores. Antes de aqui chegarmos, vimos entrar neste lugar um homem com uma carroça com aparência desprotegida, mas que na verdade é uma perigosa ameaça, Senhor.
_ Aquiete-se, criatura._disse o ancião em voz calma e protetora._ Já ouvi esta história hoje, mas não somos nós o alvo de nenhuma ameaça. É a ti que procuram, é a tua cabeça que está a prêmio.
Perplexa com a revelação, fiquei muda por instantes. Em seguida, diante da força do seu olhar e, em dúvida se teria feito a coisa certa ao me identificar, pois uma Criatura da Noite jamais pode revelar sua verdadeira identidade a um mortal, e eu ainda duvidava que ele fosse também um vampiro, perguntei:
_ Não me ocorre porque minha cabeça valeria tanto, Senhor, quem haveria de quere-la e porque? _ Ele respondeu em tom firme._ Shao Khan é o ser que deseja a qualquer custo tua cabeça. O homem que vistes na carroça veio a seu mando. E se te pareceu perigoso, não imaginas o que te espera. Quanto ao motivo, não é do meu conhecimento. Aceite apenas o que te digo e resigna-te com o muito que agora sabes.
_ O que devemos fazer, Nobre Senhor?
_ Saiam imediatamente deste castelo, procurem o homem da carroça e o destruam. Em seguida, fujam rápido, para o mais longe possível.
O homem pareceu querer voltar aos seus aposentos, mas eu ainda insisti:
_ Podes me dar mais algum sábio conselho, Senhor?
Ele balançou a cabeça em negativa e falou:
_ Apenas o que já disse antes. Encontrem o homem da carroça, o destruam e fujam rápido deste lugar.E antes que eu continuasse com meu interrogatório, ou pudesse agradecer, ele desapareceu pela porta por onde havia entrado, sem dizer mais nada.
Fiquei sem ação por instantes e, em seguida, resolvi que o melhor a fazer era encontrar Ashtar. Ele estava fora do castelo, ao lado do meu cavalo, esperando impaciente e, quando lhe contei a conversa que tivera com Yan Zen, ele balançou a cabeça, num gesto de incredulidade. A voz de Al Hazer ecoou de novo nos nossos ouvidos, meus e de Ashtar e ouvimos a seguinte mensagem:
"Vim ao seu chamado... assim que pude. Também conversei com o sábio ancião. Ele pediu-me que escondesse a ti, Layla, no calabouço dentro do castelo, lá estarás segura."
Abrahan Al Hazer contou ainda que vira um grande dragão branco e serpentinoso repousando... e, como quem recebe um devaneio, disse que fora advertido que poderíamos repousar no calabouço do castelo, em segurança.
Faltava muito pouco para o dia nascer. Tínhamos que encontrar o homem da carroça e saímos a sua procura. Em vão. Nada vimos que pudesse ao menos indicar que ele ali estivera. Estávamos apavorados com a idéia das trevas se dissipassem e sem saber o que fazer e resolvemos deixar para a noite seguinte nossa procura. Assim sendo, nos recolhemos ao calabouço do castelo, para o nosso sono profundo.
Nossa procura durou 13 luas. Quando as trevas partiam, escondíamos no calabouço e, tão logo elas regressavam, saíamos à procura do vampiro malígno e obcecado. E foi quando a décima terceira lua surgiu, quando reiniciávamos nossa busca, que vimos, surpresos, o portão de entrada daqueles domínios ser derrubado por dezenas de homens-lobo, tendo a sua frente o homem da carroça liderando-os.
Encolerizado, Ashtar se dirigiu ao portão de entrada para lutar. Eu, no entanto, corri para dentro do castelo para pedir socorro a Yan Zen. Sua porta estava fechada e assim permaneceu. Bati desesperadamente, mas ele parecia dormir um sono profundo. Continuei batendo e batendo... nada. Então, juntei todas as minhas forças, com poder de Coragem e Determinação e, em dois golpes, coloquei a porta ao chão. Lá dentro, havia um grande baú aberto, cadeiras de madeira nobre, um tapete imenso e muitas almofadas de tecidos e cores vibrantes. O cômodo, entretanto, estava vazio. Nenhum sinal do Homem.
Vasculhei todos os cantos à procura de alguma passagem, mas nada encontrei. De repente, a terra começou a tremer e uma imensa bola de energia, totalmente negra e opaca, que tremulava com raios ao redor, sugou tudo para dentro de si, num força gravitacional violenta. Me agarrei ao que pude, para me salvar, mas a bola de energia acabou por me tragar também. Meus últimos pensamentos foram para Abrahan Al Hazer, Ashtar, meu cavalo Chenar... eu não os veria mais? E Zathar? Nunca mais estaria em seus braços?




O Encontro no Vale de Kashmir



Há noites eu caminhava com uma caravana em direção do oeste de Catai, impulsionada por um homem que me aparecera em um sonho e me mandara encontrá-lo num vale verdejante. Por algum motivo especial eu deveria estar com ele no Vale de Kashmir, supunha.
Em Catai, deixara Meu Senhor de sangue, o Mestre que me abraçara e tornara sua cria. Era a primeira vez que nos separávamos depois de tanto tempo juntos. No entanto, os sentimentos que nos uniam eram por demais fortes e na minha mente eu guardava a certeza que a nossa convivência não terminaria ali. Por isso, seguia tranqüila. Agora, era premente que eu encontrasse o homem presente no meu sonho. Em tão breve momento, ele me passara uma aura de coragem, perseverança e paz. Eu tinha que ir.. não havia como evitar.
Durante os dias desta viagem longa, nos momentos que antecediam aos primeiros raios da aurora, eu me recolhia em esconderijos, para impedir que o sol desse fim a minha existência. Mas, quando a noite descia e tudo cobria com seu manto negro, continuava minha jornada, sentindo-me levada por uma mão poderosa, na direção de alguma parte do meu destino.
Foram muitas e muitas luas até chegar a um vilarejo com poucas casas, habitadas por pessoas de hábitos singulares. Eu não via mulheres, somente homens. Seus olhos eram muito negros, os cabelos raspados. Suas peles escurecidas e encarquilhadas eram sua única vestimenta. Os pés, calejados pelo andar direto na terra, eram ágeis e fortes, não tão ágeis quanto os meus, no entanto, que me permitiam deslocar rapidamente de um lugar para outro, como um raio.
Era quase o meio da noite quando entrei no povoado, a maioria dos moradores já se recolhera para dormir. Foi quando percebi ao longe o mesmo homem coberto por mantos negros, que me enviara a mensagem enquanto eu dormia. Também ali, ele emanava uma sensação de paz tamanha, que eu apenas concebia em meus sonhos mais distantes. A sensação que eu tinha ao vê-lo era semelhante às miragens do deserto de Gobe.
Ele conversava com um homem muito grande e forte, que mais parecia um animal, quando se sentiu atraído pela minha presença às suas costas. Virou-se então rapidamente e nossos olhos se encontraram pela segunda vez, agora em tempo real. Nos aproximamos e ele disse, com voz pausada e macia:_De onde vens, linda criatura? Quem tu és?_Intriga-me que não saibas, Nobre Senhor, pois obedeço ao teu chamado. Dissestes, em meus sonhos que aqui te encontrasse. Andei muitas e muitas luas para estar contigo. É estranho que não me aguardes._Pois, peço-te desculpas por não te reconhecer e confesso que também estivestes nos meus sonhos. Teríamos vindo, pela vontade de um ser maior?Assim dizendo, ele estendeu as duas mãos e, tocando meus ombros, se apresentou: _Sou Abraham Al Hazer, da Casa Cappadocius, é um prazer inenarrável este encontro contigo. _ O mesmo digo a ti, Nobre Senhor. Eu sou Layla, Filha da Noite, Minha Casa é a dos Toreador.
Em seguida, ele me apresentou ao homem com quem conversava. Um ser muito alto e forte, corpo coberto por pelos e pinturas, mais parecendo um felino. Suas mãos e pés chamaram a minha atenção, eram muito grandes e mais pareciam garras com dedos enormes. Ele olhou para mim surpreso, porque eu era muito pequena diante dele e Al Hazer cuidou das apresentações:_ Ashtar, esta é Layla, criatura das noites de Catai, uma Toreador. Também está aqui a um chamado. Penso que uma importante missão nos foi reservada. Devemos manter-nos unidos, para qualquer fim._ Layla, este é Ashtar, da Casa dos Gangrel, uma criatura da noite também como nós. Ele vem do extremo Leste e, como nós, tem uma missão aqui também.
Se já tinha que levantar os olhos para colocá-los dentro do olhar de Al Hazer, diante daquele homem enorme, o maior que eu já vira até então, tive que me esticar inteira. Nos cumprimentamos e conversamos por algum tempo. Por mais que sua imagem me lembrasse a de uma fera, sua essência me parecia de certa forma doce, mas extremamente esperta, talvez por se assemelhar com um animal.
Depois, saímos andando para reconhecermos melhor o local. Era um lugar de rara beleza, cercado por montanhas viçosas, de onde nascia um rio que se tornava mais largo gradativamente. Um pequeno povoado fora construído em uma de suas margens, as pequenas casas de barro eram muito bem feitas, todas do mesmo tamanho e estilo. Atrás delas, uma floresta densa, com fauna e flora abundantes se estendia no entorno do vale.
A noite estava clara. Uma lua imensa banhava de prata toda a vida que ali havia. Isto me fez pensar: “Porque os mortais não aprendem a valorizar as trevas e guardam para elas seus momentos de repouso? A beleza e a quietude da escuridão propiciam tanto à criação.. até os prazeres são mais intensos à noite...”
Absorta em meus pensamentos, por pouco me esquecia que não estava só. Al Hazer fez com que eu voltasse à realidade e contou-nos que, pouco antes da nossa chegada, estivera com uma criatura nativa, um homem muito acolhedor que lhe oferecera abrigo em sua casa.
Seus olhos desviaram dos meus e os meus acompanharam os dele, até um ponto perto da margem do rio onde dois nativos obedeciam a um ritual. Deitados de frente para a terra, jogando o corpo para cima e para baixo, num ritmo sincopado e crescente, entoavam um mantra numa língua estranha. Um deles, vestia uma túnica vermelha com uma faixa amarela, o outro com uma faixa branca. Neste momento, além deles, nenhum morador daquela aldeia era visto fora de suas casas.
_ Precisamos pensar onde nos abrigar antes que a noite se vá, disse Al Hazer. E acrescentou:_ Estou certo que vós, meus amigos, serão também gentilmente acolhidos, como eu fui. Será um prazer dividir convosco o mesmo teto. O homem que me ofereceu sua casa, ficará com certeza feliz em recebe-vos também.Agradeci a oferta e aceitei prontamente. Ashtar, no entanto preferiu se embrenhar na mata e fazer da terra seu leito de sono. Nos despedimos, e eu segui Al Hazer para uma investigação no povoado.
As casas de barro eram bem feitas. Do lado de fora podíamos ver, com nossa visão privilegiada, seu interior. Os habitantes pareciam dormir tranquilos. Sobre as mesas, restos da refeição noturna. O silêncio era profundo, só quebrado pelo mantra dos dois homens vestidos, que continuavam suas orações num ritual que parecia não ter fim. Continuamos andando até que me deparei com a visão magnífica de um cavalo castanho, muito maior e mais bonito do que todos que eu já vira até então. Algo na minha mente me remetia ao passado, mas eu não me lembrava do que, por mais que me esforçasse.
Percebendo meu interesse e o brilho de encantamento em meu olhar, Al Hazer disse em tom de alerta:_ Cuidado, Filha da Noite, este é Chenar, meu carniçal. Pode parecer dócil, à primeira vista, mas é por demais arisco e sempre violento com estranhos. Sorri, já quase em êxtase, diante da beleza do animal:_ Permita-me tocá-lo, Senhor, por favor.Delicadamente, meu amigo tomou minha mão entre as suas e permitiu que eu deslizasse a ponta dos dedos com suavidade sobre o pelo macio. O cavalo não esboçou nenhuma reação e se deixou ser tocado por mim. Preocupado diante do meu encantamento e me percebendo quase em frenesi, Al Hazer achou melhor que saíssemos dali e convidou-me a entrar na casa que fora oferecida a ele como abrigo.
Os moradores dormiam. Pareciam mergulhados em sono profundo. Na sala, havia uma pequena mesa ao centro, tendo à roda bancos feitos com troncos de árvores. À direita, uma cortina separava a sala de um dos cômodos. Estava fixada bem no alto, de um dos lados, e do outro presa por um gancho, de onde podia ser retirada para passagem. Meu amigo suspendeu a cortina e vimos lá dentro um casal e uma criança. Seus olhos brilharam e a ponta de seus caninos apareceram levemente. Mas, ele desceu de imediato a cortina e nos dirigimos ao fundo da casa. Não seria nada honroso alimentar-se dos familiares do homem que lhe oferecera guarida.
Mais um cômodo separado por uma cortina, este vazio, guardava apenas alguns vasos e potes de barro. Ali deveríamos ficar. Meu amigo correu os olhos calculando milimetricamente as possibilidades para nosso descanso e disse:_Veja, caríssima, aqui não podemos ficar. As paredes contêm inúmeros furos para a entrada do ar. Será um desastre para nós, quando as trevas se forem e os raios de luz por eles entrarem, não nos restará mais nada. Temos que encontrar um lugar mais seguro para o nosso descanso, portanto.
Saímos à procura de grutas no sopé das montanhas. Não havia nenhuma. Só nos restava uma opção: fazer do fundo do rio nosso leito de sono. Al Hazer, mais uma vez, me pareceu uma criatura singular. Havia uma paz que dele era irradiada e eu pensei que meus novos companheiros, eram pessoas amigas, em quem poderia confiar. Nos despimos, deixando nossos trajes sobre uma pedra, próximo a Chenar e entramos na água tépida.Ele seguiu na frente, mergulhou, voltou à tona e disse: _Teremos que cobrir nossos corpos com lama, porque apenas 15 metros de profundidade nos separam dos raios solares. Muito pouco para nossa segurança.Então, mergulhamos, nos cobrimos com o barro existente no fundo e nos desligamos da vida enquanto o sol permaneceu.Assim que as trevas chegaram, nadei para superfície, banhei meu corpo e lavei os cabelos. Sempre gostava daquele ritual que me trazia à lembrança, Zathar, Meu Senhor. Durante o tempo que estivemos juntos na floresta em Catai, muitas noites passávamos dentro da minha pequena cabana. Foram momentos preciosos de aprendizado e prazer. Mas, antes que os primeiros raios descessem, ele me ensinara a descansar no fundo do rio, ou em grutas existentes na base da montanha de árvores no formato de agulhas que eu amava tanto.
Balancei a cabeça para espantar as saudades e decidi não me vestir. Andei nua investigando o lugar para onde tínhamos sido levados. Eu, Abraham Al Hazer e Ashtar tínhamos algo de muito importante a fazer ali. Precisávamos descobrir... uma leve inquietação apertava meu peito. Mas, logo, meu companheiro de sonhos surgiu das águas e veio ter comigo._Não vais te vestir, criatura?_Não devemos, Senhor. Os moradores deste povoado não cobrem seus corpos. Seria deselegante e indelicado da nossa parte esconder nossa nudez. Seus hábitos devem respeitados._Estás coberta de razão, minha cara. E sorriu elogiando minha percepção.
Mais tarde, me contou como havia sido seu encontro com Ashtar, o que acontecera com dois nativos e como se mantiveram alimentados. Disse a ele que não devíamos saciar nossa fome com o sangue dos moradores daquele pequeno povoado. Ele olhou para mim interrogativamente e eu percebendo o que ele queria saber, disse: _Se nos alimentarmos dessas pessoas, em pouco tempo não restará ninguém. Creio que, de alguma forma, estamos aqui para protege-los e não para dizimá-los, Senhor. Tenho comigo ervas poderosas que aprendi a cultivar em Catai. Uma delas trás o benefício de reproduzir o sangue rapidamente. Podemos angariar a confiança destas pessoas e oferecer-lhes a cura para vários males. Além disso, podemos dar a eles uma regeneração rápida, em troca do que é para nós o bem mais precioso, seu sangue para nosso alimento.
Mais uma vez, Al Hazer olhou para mim de maneira surpresa com o meu comportamento e seguimos à procura de Ashtar. Quando o encontramos, ele nos contou que havia mergulhado na terra e se fundido com ela, seu sono também havia sido reparador. E contou ainda que estava sendo objeto de observação de um corvo estranho e indicou com os olhos a ave empoleirada num dos galhos mais altos de uma árvore. Ao ser percebido, o animal imediatamente voou para longe. Mas, Ashtar também muito rápido, se metamorfoseou em um grande morcego e, batendo as asas enormes e prateadas, desapareceu na captura do corvo. Este, no entanto, desaparecera na mata. Estávamos realmente sendo observados. Por quem???
Com a volta de Ashtar, combinamos nos separar para melhor seguir com a investigação daquilo que nos trouxera ali. Eu me dirigi ao povoado para espreitar as casas e as pessoas que nelas viviam. Al Hazer saiu à procura do homem que lhe oferecera abrigo e Ashtar voltou à floresta. Cada um de nós mergulhou no que era mais habilidoso e, quando nos encontramos novamente, dividimos uns com outros nossas impressões.
Ashtar, contou que encontrara uma coruja grande e branca, que lhe prometera informações a respeito do desaparecimento do corvo e do que ele fazia ali nos espreitando. Presa em sua cintura, o Gangrel trazia uma lebre enorme. Ele explicou que era fruto de uma caçada e que este tinha sido o preço estipulado pela coruja em troca das informações. Muitas coisas importantes poderiam ser descobertas a partir daquele contato.
Al Hazer parecia muito preocupado, várias vezes desviava o olhar na direção do leste. Contou que o homem que lhe dera hospedagem era um espiritualista poderoso e parecia saber muitas coisas. Mas que, só falaria no momento certo.
Eu, dividia com meus novos amigos o que descobrira em minhas investidas pelo povoado, quando Al Hazer disse muito sério:_ Uma enorme mancha negra caminha nesta direção, vinda do leste. Preciso viajar até lá para descobrir o que é. Não tenho bons presságios, Um grande perigo ameaça esta região e tudo que nela vive. _O que seria, Senhor? Perguntei curiosa._Vou descobrir, caríssima. Enquanto isto, tome conta da minha matéria. Se eu não voltar antes que as trevas saiam, leve meu corpo para o fundo do rio, como fizemos ontem, para que não pereça sob os raios do dia. Vou tranqüilo porque sei que posso contar com tua lealdade e dedicação._Vá, descansado, Senhor, a Filha da Noite cuidará não só de Ti, como também do teu carniçal e das pessoas que aqui vivem. Com a ajuda de Ashtar, tudo estará bem.
Dito isto, Al Hazer sentou-se na posição de Lótus e deixou seu espírito fluir no espaço em direção à mancha que crescia. Minha mente me dizia, no entanto, que algo de muito ruim estava para acontecer. E os presságios não foram infundados. No tempo certo Al Hazer não havia retornado e eu sabia que algo sério impedia sua volta. No entanto, o povoado parecia tranquilo. O silêncio era enorme, só quebrado pelo mantra dos dois homens que continuavam o ritual.



O Sonho de Layla


Layla sonha.
Vislumbra um enorme jardim, cheio de flores tão belas, tão inebriantes, que mal sabe dizer o que é aquilo. Olha acima, e vê o sol. Fica deslumbrada, e não sente medo de seu toque de calor.
O sol começa a descer, e lentamente vira um homem de mantos negros, que emana uma sensação de paz tamanha que Layla só poderia conceber nos sonhos mais joviais. Ele tira o manto, e revela um rosto que só ela percebe a aura de coragem dele, sua perseverança e paz, quase como um rosto formado de emoções intercaladas pela natureza.
Ele estende as mãos e mostra dois caminhos, formados pela lateral de uma montanha tão alta que, quando toca o céu, parece ainda não ter fim, com neve cobrindo boa parte de sua superfície.
Um dos caminhos é um jardim de quase tamanha exuberância quanto o primeiro, e o segundo é escuro, com um céu avermelhado, árvores mortas, nenhuma vegetação, e alguns abutres voando.
A cataiana se vê condicionada a ir andando ao caminho do jardim, e se sente convicta disso. Ao caminhar por lá, assim que vira uma parte dos pés da montanha, vê uma guerra, onde vários homens pálidos, com a Besta nos olhos, e mantos vermelhos, chacinavam alguns camponeses. Eles a olham, e ela sabe que teria de fugir.
E corre com todas as suas forças, parecendo se mover tal qual um raio. Mas eles se movem ainda mais rápido e a encurralaram num enorme paredão. O medo corre de tal maneira que ela pensa ser seu fim, quando a terra a engole, e a lança em direções mil, deixando-a totalmente desnorteada. Então, ela é cuspida pela terra, no alto da montanha, e pode vislumbrar toda a cena lá em baixo, com os homens de vermelho confusos e os corpos dos camponeses ao chão.
Olha pro outro lado e vislumbra o caminho avermelhado e nenhuma alma viva além de poucos pássaros negros. Ao longe, uma enorme trilha que segue além do horizonte, recheada por vales, montanhas, florestas e rios por onde passa, mas sem nenhuma ligação aparente com nenhum dos caminhos abaixo.
Acima, ao céu, o contraste de 3 cores: em cima do jardim, um céu azul lindo, com uma sensação de calma. Em cima do vale morto, um céu vermelho, e um sol quase alaranjado, de brilho morto. E acima da montanha e do caminho à frente, um céu azul marinho todo estrelado, com uma enorme lua cheia.
Lentamente e atraída por uma força poderosa Layla desce a cabeça e vislumbra o homem de mantos negros. Ele a olha nos olhos, e agora ela percebe seus traços físicos. Ele é de pele mais clara e incrivelmente pálido, olhos mais finos e também claros, cabelos levemente encaracolados, e lábios finos. Ele sussurra: "encontre-me nos grandes vales do oeste".
Layla acorda.... e já sabe onde deve ir.

O Abraço


Um dia, aportou por aquelas terras amarelas um cavalheiro de aparência nobre e gestos elegantes. Em nada se parecia com os habitantes de Catai. Muito alto, esguio, nariz afilado, boca bem desenhada e uma expressão sombria. A pele era incrivelmente pálida, os cabelos longos, da cor do mel e as unhas ponteagudas, afiadas e de nácar. Os olhos, profundos, eram tão claros que pareciam encerrar a luz dentro deles. Seus hábitos eram desconhecidos daquela gente e ele se mostrava arredio. Nunca era visto andando pelas aldeias durante o dia e só fora flagrado algumas vezes, depois que o sol se punha, se embrenhando na mata.Numa dessas visitas à floresta, ao ouvir um barulho de passos sobre folhas secas ele a viu e ficou imóvel para espreitá-la se banhar na noite... poderia ser a presa que ele procurava há tanto tempo. Ela era bastante graciosa. Seus cabelos eram longos e negros, a boca carnuda, maçãs do rosto salientes e uma carne que parecia extremamente macia. Os olhos eram puxados como os dos nativos daquele lugar e tinham um encanto como ele não vira ainda em nenhuma. Ela se despiu das peles que envolviam seu corpo e andou em direção ao rio.
O visitante noturno permaneceu quieto em seu esconderijo. Seus olhos soltavam chispas de excitação enquanto assistia a mulher num exercício de mutação. Conforme se movia, se mostrava como um felino brincando na água, ora como um grow, andando a passos curtos e ritmados, ora deslizando lânguida e sorrateira como uma serpente. Sua visão era fantástica.
Zathar, este era o nome do homem, sorriu enigmaticamente. A busca finalmente chegara ao fim. Encontrara aquela que encerrava em si a profecia de extinção do seu clã. Tantos anos se passaram, depois do massacre da tribo de Zang, e agora que estava ele ali, diante daquela mulher de graça e luz, ela não lhe parecia em nada perigosa e isto oincomodava.
Sem perceber ser alvo de cobiça ela não tinha porque se intimidar e foi como um banquete aos olhos dele, que não perdia nenhum de seus movimentos. Como todo vampiro, Zathar não respirava, entretanto aquela visão fez subir e descer seu peito para o ar entrar. Seus dentes, projetados para fora dos lábios, deixavam um rastro de desejo escorrer pelas mandíbulas, como um caracol deixa seu lastro por onde passa. Ficou a espreita-la enquanto se banhava e andava de volta para a pequena cabana cercada por seus animais. Ele queria se aproximar, mas algo o impedia. Talvez o desejo de te-la, o que poderia atrapalhar seu intento. E isto o irritou profundamente. Coisa mais absurda... ele, um vampiro, se sentir incomodado por uma mortal qualquer. Mas, ele era um Toreador e, como tal, sempre se extasiava diante do belo, esta era sua grande fraqueza... e, mesmo que ela não fosse tão bela, algo o impressionava e atraía naquela mulher.
Esta situação durou ainda algum tempo, até que se aproximou. Quando seus olhares se cruzaram, Pye-lem conheceu de imediato toda a verdade de seu destino. Olhou para o homem e soube que precisava exterminá-lo. Para este dia Zang a tinha preparado. Era este o rumo a ser seguido, a sorte fora enfim desvelada. Eles permaneceram extáticos, olhos fincados um no outro, calculando gestos e intenções.
Para quebrar a imobilidade de ambos, ela se moveu rápida de posse da lança. Seus olhos nunca foram tão cruéis como naquele instante. Entretanto, Zathar permaneceu impassível e inalterado, sorriu de sua ingenuidade e a imobilizou pelos cabelos forçando sua cabeça para trás. Tomou-a nos braços e caminhou mata a dentro até a pequena cabana onde ela vivera tanto tempo. Lá, deitou-a ao chão e a olhou do alto, medindo com cuidado a melhor maneira de exterminá-la. Podia quebrar seu pescoço, ou impedir que respirasse. Depois, deceparia sua cabeça e a levaria consigo, como um troféu.
Estranhamente, ela se abandonou à própria sorte, talvez fosse o melhor a fazer. Não encontrava forças, por mais que tentasse, pois a única imagem que vinha a sua mente era a solidão imensa que vivia. E resolveu não resistir ao poder daquele homem e só desejou que fosse breve, muito breve o instante do seu encontro com a família.
Sem pensar, o vampiro abaixou-se e, num assomo, cravou no pescoço dela seus dentes e sugou... sugou lenta e fortemente todas as gotas de seu sangue. Pye-lem se esvaía ao mesmo tempo que imagens de sua juventude passavam quadro a quadro pela sua mente. A dor, profunda e lancinante, tomou seu corpo já extenuado e o pavor de sua mente. Como era fria a morte. Mais solitária do que aqueles 20 anos na mata.
Zathar viu o corpo da mulher jazendo inerte em seus braços e não se sentiu satisfeito. Poderia deixá-la morrer, mas poderia fazer dela sua criação, só ele poderia decidir isso. Só ele tinha as cartas para ganhar aquele jogo. Para isto, bastava dar a ela poucas gotas de seu sangue por três vezes consecutivas e permanecer a seu lado durante o tempo de extremo sofrimento que se seguiriam. Depois, iria embora finalmente.
Pressionou então os caninos longos sobre o próprio pulso e deixou cair deles, para os lábios já pálidos dela, algumas gotas de sangue. Ela bebeu como se tivesse encontrado um oásis, após andar perdida por uma eternidade no Deserto de Gobe. E queria mais, muito mais.
Ele a deixou quieta no chão e cuidou de sua transformação. Permaneceu a seu lado e deu-lhe mais duas vezes seu sangue, até que ela acordou faminta de sua longa noite de sono. Olhou a sua volta à procura de alimento e tudo lhe pareceu insípido. Na sua mente, só as aldeias do entorno da mata e as pessoas que nelas viviam. Seus olhos buscavam aquele que agora era seu Senhor e brilharam como nunca quando seus olhares se encontraram.
Um longo tempo, passaram o Senhor e sua cria juntos. Ele a ensinou a falar, desenvolveu seu raciocínio, sua ligeireza, a capacidade natural de extrair para si o que cada pessoa possuía de mais forte. E deu-lhe ainda o poder de ser vista, mesmo mantendo o mesmo corpo físico, com as formas mais variadas, de acordo com o terror de cada um que dela se aproximasse com intenções negativas. Aos poucos, cuidou da transformação de seus traços definitivamente, até que nem mesmo ela se lembrava mais ser uma nativa de Catai. Minimizou o amendoado de seus olhos e os clareou, assim como sua pele. Fez dela um ser de extraordinários poderes mentais, com força de convicção, inteligência, atitude, determinação e dominação.
Ele a olhava e pensava que a estava criando à sua imagem e semelhança, esperando que um dia, ela superasse inclusive a si próprio. Em meio a tudo isto, se amavam com sofreguidão. Muitas vezes nem se tocavam, não era preciso. Noutras, se fundiam como astros em explosões. E não haviam limites para eles. O prazer era exercido das mais variadas formas e sempre com uma intensidade indescritível. Compreensivo, eram dois Toreador, o hedonismo falava por eles.
Uma noite, enfim, Zathar rebatizou Pye-lem conforme uma do seu clã e fez com que ela deixasse no passado toda sua memória e o nome que recebera de seu pai. Finalmente, nascia Layla - A Filha da Noite