quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

O Abraço


Um dia, aportou por aquelas terras amarelas um cavalheiro de aparência nobre e gestos elegantes. Em nada se parecia com os habitantes de Catai. Muito alto, esguio, nariz afilado, boca bem desenhada e uma expressão sombria. A pele era incrivelmente pálida, os cabelos longos, da cor do mel e as unhas ponteagudas, afiadas e de nácar. Os olhos, profundos, eram tão claros que pareciam encerrar a luz dentro deles. Seus hábitos eram desconhecidos daquela gente e ele se mostrava arredio. Nunca era visto andando pelas aldeias durante o dia e só fora flagrado algumas vezes, depois que o sol se punha, se embrenhando na mata.Numa dessas visitas à floresta, ao ouvir um barulho de passos sobre folhas secas ele a viu e ficou imóvel para espreitá-la se banhar na noite... poderia ser a presa que ele procurava há tanto tempo. Ela era bastante graciosa. Seus cabelos eram longos e negros, a boca carnuda, maçãs do rosto salientes e uma carne que parecia extremamente macia. Os olhos eram puxados como os dos nativos daquele lugar e tinham um encanto como ele não vira ainda em nenhuma. Ela se despiu das peles que envolviam seu corpo e andou em direção ao rio.
O visitante noturno permaneceu quieto em seu esconderijo. Seus olhos soltavam chispas de excitação enquanto assistia a mulher num exercício de mutação. Conforme se movia, se mostrava como um felino brincando na água, ora como um grow, andando a passos curtos e ritmados, ora deslizando lânguida e sorrateira como uma serpente. Sua visão era fantástica.
Zathar, este era o nome do homem, sorriu enigmaticamente. A busca finalmente chegara ao fim. Encontrara aquela que encerrava em si a profecia de extinção do seu clã. Tantos anos se passaram, depois do massacre da tribo de Zang, e agora que estava ele ali, diante daquela mulher de graça e luz, ela não lhe parecia em nada perigosa e isto oincomodava.
Sem perceber ser alvo de cobiça ela não tinha porque se intimidar e foi como um banquete aos olhos dele, que não perdia nenhum de seus movimentos. Como todo vampiro, Zathar não respirava, entretanto aquela visão fez subir e descer seu peito para o ar entrar. Seus dentes, projetados para fora dos lábios, deixavam um rastro de desejo escorrer pelas mandíbulas, como um caracol deixa seu lastro por onde passa. Ficou a espreita-la enquanto se banhava e andava de volta para a pequena cabana cercada por seus animais. Ele queria se aproximar, mas algo o impedia. Talvez o desejo de te-la, o que poderia atrapalhar seu intento. E isto o irritou profundamente. Coisa mais absurda... ele, um vampiro, se sentir incomodado por uma mortal qualquer. Mas, ele era um Toreador e, como tal, sempre se extasiava diante do belo, esta era sua grande fraqueza... e, mesmo que ela não fosse tão bela, algo o impressionava e atraía naquela mulher.
Esta situação durou ainda algum tempo, até que se aproximou. Quando seus olhares se cruzaram, Pye-lem conheceu de imediato toda a verdade de seu destino. Olhou para o homem e soube que precisava exterminá-lo. Para este dia Zang a tinha preparado. Era este o rumo a ser seguido, a sorte fora enfim desvelada. Eles permaneceram extáticos, olhos fincados um no outro, calculando gestos e intenções.
Para quebrar a imobilidade de ambos, ela se moveu rápida de posse da lança. Seus olhos nunca foram tão cruéis como naquele instante. Entretanto, Zathar permaneceu impassível e inalterado, sorriu de sua ingenuidade e a imobilizou pelos cabelos forçando sua cabeça para trás. Tomou-a nos braços e caminhou mata a dentro até a pequena cabana onde ela vivera tanto tempo. Lá, deitou-a ao chão e a olhou do alto, medindo com cuidado a melhor maneira de exterminá-la. Podia quebrar seu pescoço, ou impedir que respirasse. Depois, deceparia sua cabeça e a levaria consigo, como um troféu.
Estranhamente, ela se abandonou à própria sorte, talvez fosse o melhor a fazer. Não encontrava forças, por mais que tentasse, pois a única imagem que vinha a sua mente era a solidão imensa que vivia. E resolveu não resistir ao poder daquele homem e só desejou que fosse breve, muito breve o instante do seu encontro com a família.
Sem pensar, o vampiro abaixou-se e, num assomo, cravou no pescoço dela seus dentes e sugou... sugou lenta e fortemente todas as gotas de seu sangue. Pye-lem se esvaía ao mesmo tempo que imagens de sua juventude passavam quadro a quadro pela sua mente. A dor, profunda e lancinante, tomou seu corpo já extenuado e o pavor de sua mente. Como era fria a morte. Mais solitária do que aqueles 20 anos na mata.
Zathar viu o corpo da mulher jazendo inerte em seus braços e não se sentiu satisfeito. Poderia deixá-la morrer, mas poderia fazer dela sua criação, só ele poderia decidir isso. Só ele tinha as cartas para ganhar aquele jogo. Para isto, bastava dar a ela poucas gotas de seu sangue por três vezes consecutivas e permanecer a seu lado durante o tempo de extremo sofrimento que se seguiriam. Depois, iria embora finalmente.
Pressionou então os caninos longos sobre o próprio pulso e deixou cair deles, para os lábios já pálidos dela, algumas gotas de sangue. Ela bebeu como se tivesse encontrado um oásis, após andar perdida por uma eternidade no Deserto de Gobe. E queria mais, muito mais.
Ele a deixou quieta no chão e cuidou de sua transformação. Permaneceu a seu lado e deu-lhe mais duas vezes seu sangue, até que ela acordou faminta de sua longa noite de sono. Olhou a sua volta à procura de alimento e tudo lhe pareceu insípido. Na sua mente, só as aldeias do entorno da mata e as pessoas que nelas viviam. Seus olhos buscavam aquele que agora era seu Senhor e brilharam como nunca quando seus olhares se encontraram.
Um longo tempo, passaram o Senhor e sua cria juntos. Ele a ensinou a falar, desenvolveu seu raciocínio, sua ligeireza, a capacidade natural de extrair para si o que cada pessoa possuía de mais forte. E deu-lhe ainda o poder de ser vista, mesmo mantendo o mesmo corpo físico, com as formas mais variadas, de acordo com o terror de cada um que dela se aproximasse com intenções negativas. Aos poucos, cuidou da transformação de seus traços definitivamente, até que nem mesmo ela se lembrava mais ser uma nativa de Catai. Minimizou o amendoado de seus olhos e os clareou, assim como sua pele. Fez dela um ser de extraordinários poderes mentais, com força de convicção, inteligência, atitude, determinação e dominação.
Ele a olhava e pensava que a estava criando à sua imagem e semelhança, esperando que um dia, ela superasse inclusive a si próprio. Em meio a tudo isto, se amavam com sofreguidão. Muitas vezes nem se tocavam, não era preciso. Noutras, se fundiam como astros em explosões. E não haviam limites para eles. O prazer era exercido das mais variadas formas e sempre com uma intensidade indescritível. Compreensivo, eram dois Toreador, o hedonismo falava por eles.
Uma noite, enfim, Zathar rebatizou Pye-lem conforme uma do seu clã e fez com que ela deixasse no passado toda sua memória e o nome que recebera de seu pai. Finalmente, nascia Layla - A Filha da Noite




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