quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Transpondo o Portal da Umbra


Quando a terra começou a tremer, uma imensa bola de energia, totalmente negra e opaca, que tremulava com milhares de raios a seu redor, sugou tudo para dentro de si, num força gravitacional violenta. Fiz o que pude, para me salvar, mas fui tragada também. Desesperada, tentei me agarrar a qualquer coisa que me parecesse firme, mas nada e ninguém escapou da força que nos engolia e, todos que ali estávamos, passamos para outro plano.
Eu não parava de pensar no meu cavalo Chenar e nos meus amigos Abrahan Al Hazer e Ashtar. Qual seria o nosso destino? Eles eram tão queridos... tínhamos tão pouco tempo de convívio e eles já faziam, definitivamente, parte da minha vida. Meus últimos pensamentos, no entanto, foram para Zathar, o Meu Senhor que me presenteara com a existência perene. Agora, que tudo parecia estar findo, minha mente voava em busca do Meu Amado Criador, para que ele me mostrasse uma saída. Entretanto, por mais que eu suplicasse sua ajuda, ele não vinha ao meu auxílio. Não haviam respostas. E meu corpo girou e girou num redemoinho sem fim, preso à tempestade de raios.
Eu não sabia precisar o tempo, mas era tudo muito lento. Até que vislumbrei três mundos distantes. Senti que poderia escolher um e escapar por ele, só precisava escolher qual.
O primeiro era uma savana. Os homens que alí viviam tinham seus corpos cobertos por pinturas de cores variadas, com predomínio do branco. Seus traços eram grosseiros e eles portavam lanças enormes.
Campinas verdejantes, cercadas por florestas temperadas formavam o segundo caminho. Seus habitantes tinham os corpos cobertos por togas. Os traços eram finos, a pele morena e os cabelos longos, lisos e brancos.
O terceiro mundo tinha o chão de terra batida. Uma pequena aldeia, assentada em tendas feitas com couro animal, era habitada por homens que montavam grandes cavalos e exibiam espadas brilhantes presas à cintura.
Qual dos três caminhos seria melhor para a minha sobrevivência? Qual deles deveria ser o meu destino? Ou deveria voltar para buscar meus amigos? Por mais que temesse a tempestade de raios, não poderia deixá-los para trás. Já estava prestes a escolher um dos caminhos, quando minha intuição me ordenou sair em busca de Ashtar.
Ele era grande e forte, mas não parecia ter poderes mentais como os de Abrahan Al Hazer. Este saberia o que e como fazer para se livrar do infortúnio em que nos encontrávamos, eu não precisava me incomodar com ele. Assim pensando, dei as costas para a savana, que me parecia ser o melhor destino, e parti de novo entre os raios à procura de Ashtar.
Quando encontrei meu amigo, nos alegramos. Juntos, seguimos pela Umbra até encontrarmos um lugar mais calmo e, de lá, vislumbramos campinas verdejantes, com enormes florestas e para lá fomos arremessados como flechas. Uma longa jornada iniciamos. Andei em linha reta por muito tempo, levando Ashtar, metamorfoseado em corvo, pousado sobre meu ombro esquerdo. Dali ele poderia ter uma visão melhor dos perigos que pudessem nos ameaçar.
Seguindo sempre em frente, deparamos ao longe com algumas pessoas ao redor de uma fogueira. Mas, estavam tão distantes que não podíamos perceber quem eram. Nenhum de nós tomava uma decisão sozinho, discutíamos sempre o que fazer. Assim, resolvemos nos aproximar mais.
Pareciam andróginos. Seus traços eram harmônicos e de aparência nobre. Os olhos eram amendoados e os cabelos longos, escorridos e loiros. Vestiam túnicas alvas, de tecido delicado, presas por faixas à cintura. Entre elas, uma mulher, que só diferia dos homens pelo volume dos seios que empurravam o tecido da túnica. Ao nos ver, ela deixou os companheiros e entrou numa das casas que havia ao redor. De lá, voltou momentos depois, seguida por um homem bastante alto, de extraordinária beleza e carisma impressionante. Ele vestia uma armadura cinza e brilhante sobre a túnica e trazia uma espada luzidia e azulada, enfiada à bainha trabalhada.
Me aproximei e fiz uma reverência respeitosa e em silêncio. Não adiantava falar porque a única língua que eu falava era a de Catai e a deles, nada tinha de parecido com a que meu antigo povo falava. Ele não se moveu diante da minha reverência. Mostrou-se inclusive hostil. Disse meu nome, mas ele não entendeu ou fingiu que não entendia. Pedi, então, com gestos delicados, que nos permitisse descansar, para que pudéssemos seguir viagem. No entanto, tudo que ele fez foi se afastar do grupo comigo e olhar forte dentro dos meus olhos. Seu olhar era inescrutável. A não ser por Zathar, meu criador, jamais vira um homem tão belo... Todavia, ele era muito duro em seu olhar, deixando claro para mim, mesmo que não falássemos um o idioma do outro, que não éramos bem-vindos.
Eu estava determinada a suplicar por uma hospedagem, mas ele adivinhou meus pensamentos e, colocando a mão na bainha da espada, fez sinal para que eu fosse embora rápido daquele lugar. Tentei mais uma vez me comunicar, mas ele me olhou secamente, puxando com firmeza a espada. Sendo assim, não havia outra coisa a fazer. Contrariada, dei-lhe as costas e prosseguimos nossa jornada.
Caminhamos até chegar a uma floresta densa e escura. Ashtar queria entrar, eu não. Preferia seguir em frente. Então nos separamos, obedecendo o que nossa mente determinara.
Eu caminhava pensando na imensa solidão de quando vivera eremita na floresta do norte de Catai, até que Zathar me encontrara e me fizera sua criatura. De vez em quando, voltava meus olhos para trás em busca de Ashtar, mas nem sinal do meu amigo. Não avistava nenhum corvo, nenhum tigre, nenhuma névoa. Depois de muito caminhar, algo passou por mim em disparada, e, subitamente, parou. Era meu amigo finalmente.
Ashtar me contou da comunicação que tivera com um animal estranho, aquela era uma floresta encantada. O animal lhe dissera que deveríamos seguir em frente, em busca de um outro mundo. Lá, com certeza, não seríamos bem recebidos, era uma terra de povos cruéis... mas, seria a única forma de encontrar o caminho de volta. Então, seguimos na direção indicada pelo animal, até nos depararmos com um muro muito alto e que se estendia além do que nossa visão alcançava. Ao centro dele, um imenso portão, dividido ao meio, se arredondava, ultrapassando sua altura. Em cada uma das partes, um grande símbolo numa língua totalmente estranha a nós dois.
O que devíamos fazer? Discutimos as possibilidades e optamos por entrar. À frente, Ashtar colocou toda sua força para abrir o portal que, leve como papel, se escancarou para nossa entrada. Surpresos e receosos entramos. Do portal para dentro, uma energia agitada regia a atmosfera. Diante de nós, uma pequena clareira se estendia separando-nos da floresta que se erguia imponente e viva. Sons incompreensíveis chegavam até nossos ouvidos e aumentavam à medida que nos aproximávamos.
Assim que começamos a caminhar entre as árvores, os sons se multiplicaram e caules e troncos começaram a se mover, galhos imensos tentando nos aprisionar como se fossem serpentes enlaçando nossos braços e pernas.
Eu não tinha medo. Confiava no poder de luta do meu amigo. Com certeza, Ashtar não permitiria que nada de mal nos acontecesse. Ele era forte e corajoso. Nada o detinha. Ele nada temia. Mas, por mais que ele lutasse, fui aprisionada por um galho enorme que envolveu minhas pernas e braços, me imobilizando por inteira.
Eu sabia que não adiantava resistir e que deveria me deixar ficar assim, até que vimos as criaturas que habitavam aquele lugar. Imediatamente, Ashtar se metamorfoseou em névoa e desapareceu. As criaturas se aproximaram, eram seres esverdeados e muito feios. Vestiam roupas feitas com pedaços de couro e usavam chapéus grotescos do mesmo material. Por instantes, observei com atenção sua chegada até nós. Eu pensava que poderiam ser amistosos, quando dois deles chegaram até a mim. Não houve nenhuma conversa. Apenas me acorrentaram e fui levada como prisioneira floresta adentro.
Bem distante do portal de entrada, vi o que parecia ser um muro de estacas pontudas, feitas com troncos de árvores. Lá dentro, um homem maior e ainda mais feio que os outros estava sentado num trono feito de ossos. Sobre sua cabeça, o crânio de um leão enorme. Paralisada, eu olhava a movimentação dos outros homens, trazendo consigo um grande e fervente caldeirão, onde colocavam ingredientes que me pareceram temperos. Eles me olhavam e riam me fazendo entender que eu seria colocada dentro daquele caldeirão para ser cozida e, possivelmente, comida.
Juntei as forças que me sobravam e me concentrei no homem sentado ao trono. Quando o atingi em cheio com meu olhar ele bateu em disparada, deixando tudo para trás. No entanto, os outros continuaram sua tarefa de preparar o banquete. De súbito Ashtar reapareceu, já na sua forma original. Olhei para ele desesperada e ele começou uma investida contra um deles. Assim, durante muito tempo, meu amigo lutou e lutou para me salvar daquela situação absurda. Um a um os homens foram caindo, até acabarem todos no chão. Faminto, Ashtar sugou o sangue de cada um deles... ele precisava se alimentar.. para repor suas forças. Em seguida, mergulhou na terra desaparecendo. Antes, porém, quebrou as correntes que me mantinham presa e me libertou.
Livre, mas ainda com as correntes nos pulsos e tornozelos fiquei só naquele lugar, buscando explicações de quem eram aqueles seres, quais eram seus costumes e de como viviam ali. No entanto, não havia muito a descobrir. Eram seres rudes e atrasados, seus hábitos não mostravam muito. Só me restava esperar por Ashtar que não voltava de seu mergulho na terra. Eu estava cansada de esperar, mas nada podia fazer. Lá fora, as árvores serpentes aguardavam silenciosas e eu aguardei por muito tempo ainda, até que Ashtar ressurgiu.
Saindo finalmente daquele lugar grotesco, andamos ainda um pouco pela floresta, escutando barulhos estranhos
Metamorfoseado numa ave imensa, meu amigo alçou-me pelas correntes e sobrevoamos a floresta. Atravessamos todo o lugar, voando sobre as árvores que se retorciam lá embaixo, prontas para aprisionar-nos caso eu me soltasse, até que fomos parar numa estrada deserta, ali perto.
E foi então que vimos uma grande carruagem, puxada por um cavalo maior do que estávamos acostumados a ver. A visão do cavalo levou minha mente até Chenar. Eu estava preocupada com meu carniçal, mas Ashtar estava atento e curioso ao ser que guiava a carruagem.... e resolveu que o melhor seria interceptá-la e fazer o condutor prisioneiro. Mas, precisávamos conhecer sua aura e, para tanto, eu tinha que agir rápido. Depois de tanto trabalho comigo, era natural que eu me dedicasse àquela tarefa com prazer.
Assim pensando, em retribuição às inúmeras vezes que meu amigo me carregara nas costas, dirigi-me sorrateira à carruagem e me posicionei de forma que, mesmo de uma distância maior, pudesse descobri quem era aquela criatura. Era a aura de um ser mágico, de grande rancor. Ao mesmo tempo, Ashtar pulou sobre o homem, derrubando-o da carruagem com um soco fortíssimo que, se não o matou, ao menos quebrou seu pescoço. Neste instante, um outro saiu de dentro da carruagem e saltou sobre o meu amigo.
Eles lutaram duramente. Meus olhos acompanhavam Ashtar sem deixá-lo um só momento, buscando o exato instante de intervir de alguma forma em sua ajuda se fosse necessário. Foi quando percebi que seu adversário trajava uma armadura negra e uma espada de um azul brilhante e, assim como o cocheiro, tinha pele negra. Seus cabelos eram prateados como a lua, e as orelhas pontiagudas.
Intrigada, pensei que havia uma certa semelhança entre eles e o guerreiro que parecia ser o líder daqueles que encontramos ao redor do fogo quando começamos a andar pela campina... sim, aquele mesmo que puxara a espada para mim e não nos dera acolhida... As diferenças estavam por conta de detalhes. O que estava na campina tinha a pele muito clara, seus cabelos eram loiros e trajava uma armadura cinza brilhante. O passageiro da carruagem trajava uma armadura negra. Mas, ambos tinham cabelos, escorridos, os olhos amendoados e traziam consigo espadas azuis cintilantes. Que povo hostil seria este?
O duelo durou pouco tempo, os golpes eram incrivelmente velozes. Eu me orgulhava de meu amigo Ashtar, ele era uma fortaleza e seu poder de fúria ajudou a tombar o homem ao chão. Em seguida, disse ao guerreiro que nos ajudasse e ele respondeu com palavras estranhas, mas meu amigo insistiu e ele acabou nos levando numa longa viagem rumo a um grande e reluzente castelo.Tombado ao chão, na estrada, com o pescoço quebrado por um golpe de Ashtar, ficara o condutor da carruagem.




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