quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Tien Kuei - Pulsão de Vida e Pulsão de Morte



Não, não estávamos em casa... estávamos muito e muito distantes... em nossas mentes, no entanto, tínhamos a certeza de que íamos em direção ao nosso destino. A nossa frente se estendia um campo amplo e sem árvores... sob nossos pés, uma vegetação herbácea, cercada por outra mais densa, com árvores de caules grossos, altos e copas bastante grandes. Estávamos cercados pela selva.Caminhávamos ainda calados, eu e Ashtar, meu amigo querido. Eu me encantava com as gramíneas e árvores pequeninas e esparsas, que nos cercavam até onde podíamos ver as árvores imensas da floresta. Bem à nossa frente, um ser muito estranho. Muito feio para muitos... mas, para mim, apenas triste.
Eu sempre via a beleza de uma forma diferente. Podia me deparar com alguém que tivesse sua beleza cultuada de norte a sul, e não me dizer nada e em nada me fascinar... ao mesmo tempo, poderia desejar ardentemente seres com quatro olhos, ou chifres nascidos no meio da testa, seres cuja pele fosse esverdeada e coberta por escamas... e, ainda, azul e fria. Nada disso me impressionava. Era uma filha da Casa dos Toreador, é certo. Mas a beleza que em mim exercia fascínio não estava apenas na harmonia dos traços, na suavidade das cores, ou texturas... a beleza, para mim, estava fortemente ligada aquilo que os mortais chamavam de alma e que me fascinava tanto.
Por isso, enquanto percebia a expressão de espanto nos olhos de Ashtar ao se deparar com o que ele via como monstro, eu apenas observava, buscando encontrar nele algo que realmente me assustasse. E, por mais que procurasse, não encontrava. Sentia lampejos de desejo de tocá-lo para perceber suas expressões. Nele havia algo que me reportava à dor. Imóveis, os três, cada um aguardando a reação do outro e foi ele quem se manifestou primeiro:
_Ashtar!!!... Layla!!!... Meus amigos, não me reconhecem?! _Sua voz era inconfundível e eu entendi porque não vira nada de feiura nele. _Não me reconhecem... é compreensível, com esta aparência que me encontro! _ Disse rancoroso... e continuou com uma voz um tanto fria: _ Sou eu, Abrahan Al-Haser!
Esperei ansiosa e sorrindo para dar-lhe boas vindas, enquanto ele e Ashtar se interrogavam, sedentos de explicações. E só quando se sentiram satisfeitos, senti os três olhos de Al-Haser pousados sobre mim. Era como se uma serpente tivesse seu olhar preso no meu. E era natural que eu sorrisse tanto... se com seus olhos originais ele percebia facilmente minhas reações, agora que tinha um terceiro olho, acima dos outros, tão roxo e brilhante, ele poderia melhor ainda desvendar minha alegria ao encontrá-lo. Ele estava horrível aos olhos de todos... mas, para mim, seria sempre belo.
_Minha querida Layla! Ashtar! _Falou tentando mudar de forma, para nos convencer de que era mesmo Al-Haser... e continuou: _Estive no "olho de um furacão", cai num lugar de terra batida e fui adorado como um "deus da morte", por homens de olhos puxados. Eles me disseram que procuravam incessantemente por uma cataiana que iria destruir o mundo e, como me acolheram, me senti na responsabilidade de cuidar deles, _disse tentando explicar suas ações, e prosseguiu:
_Recebi deles duas kamas poderosas, com cabos de osso e lâminas negras e, para retribuir, eu as dei à Shao Kan, um guerreiro gigantesco que descobri ser um avatar de um deus tigre e que um amigo da tribo convocou para ajudar a encontrar a tal cataiana e acabar com ela...
Neste momento, um espasmo me sacudiu inteira por dentro... sem que ninguém percebesse... e minha mente voou para longe. Eu me coloquei a pensar no que o destino me reservara. O que vivera antes de Zathar me fazer sua cria estava encoberto por um manto pesado e negro que ele mesmo colocara em minha memória... e me lembro de o ouvir dizendo que seria muito mais seguro para mim que eu me esquecesse de todo o meu passado. Mesmo assim, eu insistia em descobrir o que havia sob aquele manto... poderia ser a chave de tudo.
Al-Haser contou que partira para o oeste com os novos amigos e que guerreara ao lado deles por três invernos, até toparem com um grupo de Cavaleiros e Salubris. Fora, então, atacado por Yan Zen e conseguira matá-lo, cometendo o "amaranto". Disse também que fora impregnado por Yan Zen, que agora o perseguia querendo que ele se sentisse culpado pelo que fizera. O homem falava aos seus ouvidos dizendo que agora ele teria de fazer algo, que nem sabia o que era, para se redimir da culpa. Até lá, os espíritos que o protegiam iriam embora. Calada, eu observava Al-Haser... suas expressões se alternavam. Hora, ele se mostrava rancoroso, com uma expressão um tanto torpe... o ar frio e pesado. Hora, se mostrava com um ar de glória... mas, um tanto triste.
Tínhamos muitas coisas para conversar. Ele queria nos contar todas as suas venturas e desventuras... nós também a ele. Relatamos como fomos parar num mundo selvagem, o mundo das fadas, quantos momentos difíceis havíamos passado... como fomos capturados duas vezes e que a única ajuda recebida fora a de um Salubri de nome Isha. Ele tinha feito tudo pra nos tirar daquele mundo e nos retornar para onde estávamos agora. Achávamos que Isha teria sido mandado por Yan Zen. Isha era fugitivo de uma guerra contra um povo chamado "Tremere".
Enquanto falávamos, Al-Haser nos ouvia atentamente... e nós, a ele... contou-nos que depois de tantas lutas travadas fora arremessado nas terras selvagens e, lá, fora ajudado por um dos filhos de Abssimiliard, conhecido como "O Terceiro Filho" do Clã Nosferatu, "os Niktukku". Depois, fora atacado por um Brujah, quem sabe contratado pelo próprio Shao Kan para matá-lo...mesmo depois de terem lutado por tanto tempo juntos... porque ele, Al-Haser, fora descoberto como aliado daquela a quem Shao Kan queria exterminar.Fora uma luta dura e impiedosa... mas Al-Haser conseguira vencer o Brujah.
Eram muitas histórias a serem contadas... estávamos, os três, sedentos de saber o que acontecera e que poderia nos levar a desvendar toda a trama. Mas, de repente, Al-Haser caiu em transe... o terceiro olho brilhando muito forte em tons de roxo e sua luz clareando a tudo. O corpo se debatia convulso... eu imaginava se ele tinha visões naquele momento e estava certa. Quando voltou do transe, nos contou que havia visto Yan Zen copiando manuscritos de uma casa, que parecia ser do novo despertar de Set, em seis mil anos, onde ele consumiria toda a humanidade. E tinha visto também a Set, com o qual tentara lutar derrubando seus asseclas, mas que fracassara e fugira em seguida.
As visões de Al-Haser eram múltiplas. Ao mesmo tempo, vira Yan Zen ser contactado por Osíris, com feições mumísticas, que lhe mandara construir uma fortaleza ao norte, nas terras de Ravana, onde deveria aguardar pois, após cem anos, três viajantes lá chegariam. Após a chegada desses três viajantes (eu, Ashtar e Al-Haser... tudo levava a crer), Set usaria de toda sua influência e poder para destruí-los. Al-Hazer vira também Yan Zen construir, com ajuda de homens locais, uma fortaleza que se chamaria "Castelo de Tho". E, depois da nossa chegada, o ataque ao castelo e a sombra de Set por detrás, manipulando tudo.
Segundo a visão de Al-Haser, ao longe, Yan Zen preparara um ritual para evitar que fôssemos destruídos. Ao que tudo indicava, Osíris nos queria vivos. Yan Zen re-fortaleceria então toda a região com a ajuda das tribos locais e interceptaria o ataque de Shao-Kan para exterminar a mim, Layla. Quando vira Al-Hazer ao meu lado, entrara em fúria e o atacara também.
Assim que Al-Haser saiu do transe e nos contou toda esta história, decidimos caminhar rumo ao Egito. A noite estava quase no seu fim... precisávamos procurar um refúgio. Estávamos tão entretidos nas aventuras uns dos outros que nem vimos que as trevas estavam prestes a nos deixar. Rápido, encontramos uma caverna e resolvemos ali mesmo nos escondermos dos raios solares. Prosseguiríamos quando as trevas descessem novamente. Ao entrarmos, ouvimos um rugido forte... aquela caverna já possuía um dono. O rugido nos chegou por trás. Viramos imediatamente... a nossa frente, um animal magnífico, imenso e branco, com manchas pretas. Era um tigre megalodonte com imensos dentes de sabre. Ashtar e Al-Haser se prepararam rápido para a luta. Eu ainda gritei perguntando se era um macho, ou uma fêmea... mas eles nem me ouviram... e, após uma luta desesperada, mataram o animal. Estendido ao solo vimos que se tratava de uma fêmea.... as tetas cheias de leite. Eu olhava consternada... meus amigos deveriam ter prestado atenção antes de matá-la.... ainda tentei questionar com eles... mas, nem me deram bola. Corri então para o fundo da caverna à procura de filhotes, que certamente existiam... aquela era uma mãe ensandecida na defesa de sua propriedade e de sua prole... e descobri seis lindos filhotes, de pelo macio e muito branco... eu os queria a todos para mim. Mas, depois de muita discussão com meus amigos, Ashtar usou os poderes de seu clã, Gangrel, para evocar através do "Chamado de Noé", animais que adotassem os filhotes. E surgiram 13 tigresas. Algumas não se interessaram, outras sim.
Um a um os pequenos tigres foram todos indo embora. Foram levados pelas novas mães de criação que os amamentaria e os ensinaria a caçar e a se defenderem. Elas os mantinham presos, segurando-os com os dentes pela pele do pescoço, sem os machucar. E eu me apaixonei ao vê-las carregando-os com tanta delicadeza. Meus olhos estavam cheios d'água, minha garganta apertada... nunca vira uma cena tão linda... e já sentia saudades deles. Só restava um naquele instante e eu não consegui despregar meus olhos dele... e quando uma das últimas tigresas resolveu se aproximar para levá-lo, eu o peguei ao colo rápido e decidi que nada e nem ninguém nos separaria. Para alimentá-lo, usaria uma disciplina do meu Clã, que permitiria que eu transformasse meu sangue em leite para depois regorgitá-lo em sua boca. Assim fiz. Alimentado, o filhote adormecia satisfeito e não nos dava nenhum trabalho.
Enfim, rumamos ao norte durante mais seis luas. Ashtar caçava para que bebêssemos sangue e pudéssemos prosseguir viagem. Al-Hazer sentindo a presença de Set por onde passávamos e eu, encantada, alimentava meu pequeno grande bebê. Foi um tempo dos melhores que eu vivi, o daquela viagem... com meu filhote ao colo, os olhos presos na bela paisagem noturna que nem as trevas apagava, tamanha a riqueza das cores na flora pelo caminho.
Assim, prosseguimos até chegarmos a um vilarejo. As casas eram bem construídas, as primeiras que vira de alvenaria até então, com portas e janelas em madeira. Olhávamos atentos examinando todas as possibilidades de possíveis esconderijos dos raios solares e de alimentação suficiente... agora éramos quatro.
Bem à frente, depois de uma ribanceira, havia uma luz muito forte. Virei para procurar Al-Hazer e não o encontrei... ele tinha desaparecido como por encanto... eu me achava sozinha naquele instante com meu tigre... porque, Ashtar saíra também, se esgueirando entre as árvores, para descobrir que luz era aquela. Eu o segui de longe, na tentativa de desvendar que luz era aquela. Ashtar fora e voltara se esgueirando... e, ao me encontrar, me interceptou contando que naquele lugar havia uma construção piramidal em andamento e, ao seu redor, quatro obeliscos gigantescos apontados para o céu, cada um com cerca de 350 pés. Vários homens trabalhavam na construção. Havia muitos vigias e soldados. Ao fundo, sentado a um trono, estava um homem de feições estranhas, servindo-se de sangue por várias pessoas. O lugar parecia impenetrável por meios físicos.
Neste momento, Al-Haser apareceu e Ashtar contou também a ele o que vira. Sem sabermos porque, Al-Haser entrou em transe novamente. Instintivamente, eu e Ashtar nos jogamos sobre seu corpo, numa tentativa de cobrir a luz roxa e brilhante que irradiava de seu terceiro olho. Como sempre, as visões aconteceram. Al-Haser viu Set copilando manuscritos de uma casa. Manuscritos que teciam revelações sobre as primeiras noites, os segredos de Caim, suas palavras aos seus descendentes, e outros segredos. Depois que Set deixou a casa, Al-Haser viu Osíris entrar e a casa pegar fogo. Então ele andou por milhas, entrou num alçapão na terra, desceu por labirintos, evitou algumas armadilhas e entrou numa sala onde havia uma caixa retangular e transparente. Nesta caixa de material tão incrível porque não se podia ver suas paredes de tão transparentes, ele guardou os papéis.
Neste instante, Al-Haser saiu do transe. Ouvimos passos vindos da construção piramidal e eu meus amigos fugimos para a floresta. Continuar correndo e fugindo não seria nada esperto e resolvemos parar. Al-Haser entrou na penumbra para de lá ver o que acontecia... Ashtar parou em frente à uma árvore e resolveu aguardar os que nos seguiam... ele queria saber o que havia. Preocupada com a segurança do meu tigre, resolvi que subir numa árvore seria o melhor a fazer.... assim, galguei o caule agarrada ao meu querido bebê megalodonte que um dia teria dentes tão longos e poderosos como os tivera sua mãe. A determinação de salvar o tigre foi tanta que consegui ser mais rápida que era normalmente... e subi num piscar de olhos na árvore.
Os homens apareceram, cercaram Ashtar e o acorrentaram. Da penumbra, Al-Haser os atacou usando entropia, desfacelando seus corpos, transformando-os em podridão e pó. Por sua vez, Ashtar usou seu poder de metamorfose para se transformar em névoa e se livrar das correntes. Os homens, então, descobriram a mim e ao tigre e apontaram suas lanças na nossa direção. Para proteger o filhote, coloquei meu corpo entre ele e a guarda e quando eles arremessaram suas lanças eu as recebi sem, no entanto, permitir que acertassem meu tigre. Ashtar voltou então à sua forma física para impedir que um dos homens subisse na árvore para me pegar e derrubou-o. Al-Haser continuou da penumbra atacando a guarda. Várias lanças acertaram Ashtar. De cima, eu estava em desespero pelo meu amigo e por meu tigre, vi as armas atingindo Ashtar, vi quando ele com dificuldade conseguiu se levantar, vi quando se metamorfoseou em lobo e correu atrás de um último homem, que por pouco não o deixou em torpor pelo excesso de ferimentos.Por fim, depois de uma luta desesperada, quando meus amigos conseguiram me defender, decidimos voltar até uma pequena gruta, para descansarmos e nos curarmos dos nossos ferimentos.
Ao final de sete luas, caçando e nos tratando de todos os agravantes, já melhores, quando juntos arquitetávamos um plano para penetrarmos no palácio, fomos surpreendidos por Shao Kan e um mago, às nossas costas. Eles estavam atrás de nós... nos caçando. Shao Kan não perdeu tempo e pulou na minha direção, eu era a presa que ele tanto desejava abater... mas Ashtar o interceptou e isto lhe custou uma das mãos. Shao Kan a decepou e quase decepou a outra, deixando Ashtar em frenesi. Todavia, meu amigo pulou em seu pescoço e, enfiando nele seus dentes poderosos sugou seu sangue. Al-Hazer aproveitou então para atacar o mago, mas seus ataques quase não produziram danos. Teria o mago um escudo mágico de proteção? Eu pensei que sim e, horrorizada, vi quando ele arremessou Al-Haser contra uma das estalagmites da gruta, e depois quando meu amigo caiu ao chão. Não havia tempo a perder... precisava aproveitar o momento, de Ashtar agarrado ao pescoço de Shao Kan, para retalhar o corpo do meu inimigo através de minhas artes ocultas, o que não surtiu muito efeito, porém. Ashtar continuava engalfinhado com Shao Kan. Eu conhecia muito bem a coragem e a força do meu amigo. Ele já salvara minha vida tantas vezes... eu devia tanto a ele... Al-Hazer continuou batendo no mago, mas acabou entrando em frenesi. Então o agarrou com toda a sua força e sugou todo seu sangue. Ashtar conseguiu fazer com que Shao Kan caísse e também bebeu até a última gota de seu sangue. Eu estava atônita... era inacreditável... quando Ashtar e Al-Haser pararam de beber o sangue dos nossos inimigos, deixaram seus corpos ressequidos, sem músculos e órgãos internos. Deles só restaram peles e ossos. Muito depois, Ashtar acordou incrivelmente mais forte... e muito mais alto... quase tão alto quanto Shao Kan, o antigo corpo físico já refeito. Quanto a Al-Haser, tinha os símbolos que cobriam seu corpo brilhando muito.
Al-Haser viu o que o mago viu. Soube o que o mago soube pelo primeiro filho de Arikel... que uma cataiana destruiria o mundo... e que o mago deveria ajudá-lo. O primeiro filho de Arikel, Tammaruz, disse que o terceiro filho de Arikel, Zathar, que tinha sido enviado para matar a cataiana, tinha sido destruído por tê-la tornado uma cainita. O mago então convocara o avatar de Shao Kan e recebera uma premonição em sonhos que o "deus da morte" viria ajudá-lo. Quando este aparecera, três noites depois de convocar Shao Kan e receber a visão, deu-lhe de presente duas kamas cerimoniais. Quando Al-Hazer desaparecera, depois da batalha contra Yan Zen, o mago tentara localizá-lo e descobrira em seus ritos que ele não era o deus da morte, e então partira para caçá-lo.
Ashtar viu o que Shao Kan viu: ele era o avatar de Shao Kan, o Deus-Tigre, caçador dos impunes e desonrados. Ele tinha sido convocado pelo mago para ajudá-lo à caçar aquela que destruiria o mundo. Fora dito a ele que o deus da morte viria para ajudá-los... para Al-Haser e Ashtar estava tudo explicado.
Depois que meus amigos se curaram, decidimos ir ao castelo. Cada um de nós desenvolveu um "poder oculto". Al-Hazer decidiu nos transportar através do mundo entrópico, e proteger-nos com um escudo de entropia. Era um mundo angustiante e aterrador, mas seguimos por ele e, por ele, invadimos o local... mas, só entramos no mundo físico já dentro do complexo de labirintos. Al-Haser, com alguma dificuldade, se lembrou então de todos os passos que vira Set dar em suas visões... assim, foi relativamente fácil evitar as inúmeras armadilhas, até chegar numa sala. Era um aposento quadrado, sem nenhuma janela, sem nenhum móvel. As paredes, o teto e o chão, tudo era de blocos de pedra cinza. E, no meio da sala, sobre uma pequena coluna, estava lá a caixa transparente que guardava os pergaminhos.
Paramos perto da porta, com medo de quebrar o padrão local e desta forma acionarmos as armadilhas. Decidimos, então, que seria melhor apenas esfacelar a ordem da caixa. Ashtar tinha poderes para isto e transformou a caixa em areia. Neste instante, a porta se fechou atrás de nós e fomos aprisionados no aposento... tudo começou a desabar. Ashtar tentou inutilmente conter a ordem, mas não conseguia. Al-Hazer o ajudou convocando um escudo de tropia afim de nos proteger, e eu usei pela primeira vez um muro de vida ao nosso redor para evitar a destruição de todos. De repente, fomos arremessados num saguão, onde um homem mumificado estava sentado num trono. Ele se levantou, nos olhou e começou a falar... ele não abria a boca, porém sua voz ecoou pelo salão, e pudemos entender cada palavra, por mais que nada soubéssemos daquele idioma. E ele disse:
_Vocês são aqueles protegidos pelos Antigos... Sejam bem-vindos! Sou Osíris. Procurei por vocês quando pressenti o peso de sua morte chegar. Hórus _disse apontando para um homem forte que trajava uma toga pequena e branca, e portava uma alabarda e uma máscara de falcão sobre a cabeça _foi rápido ao resgatá-los do Labirinto de Set e traze-los até a mim. Muito já ocorreu, mas os Antigos me advertiram que ainda não é a hora de dizer qualquer coisa. Eu fui incumbido de protegê-los, e assim o farei. Bom, peço-lhes que descan...
Neste momento, um enorme estrondo ecoou pelo saguão. Hórus brandiu um grito de guerra e correu até uma enorme porta que se abriu, revelando um ataque de forças titânicas. Set estava lá, sentado logo atrás dos soldados que atacavam o templo, comandando forças místicas contra as forças de Osíris.
_Não, não pode ser... _diz Osíris sem entender... _ Set conseguiu adentrar os muros espirituais! Rápido, não temos tempo a perder! Se ele conseguir destruir vocês, não haverá um novo começo. Não, não há tempo para explicações, confiem em mim!
Dizendo estas palavras, Osíris nos guiou por uma série de corredores, até chegarmos a uma sala, onde havia um pequeno portal de pedra. Neste portal, Osiris desenhou alguns símbolos com barro.
_Esta é a única maneira de tirá-los daqui, seja como for! Eu não sei onde este portal vai dar, mas sei que os Antigos os protegerão em sua viagem. _O portal de pedra começou a brilhar, deixando surgir no seu centro um prisma de luz azulada. _Vão, partam!
E nós atravessamos o portal... Nossos corpos doíam muito... dores lancinantes subiam pelas nossas colunas vertebrais até alcançarem nossas almas... bem no fundo delas... como se milhares de lanças minúsculas penetrassem pela nossa pele, queimando lá dentro. Um tempo depois, que não consegui decifrar quanto, conseguimos abrir os olhos.
Estávamos em uma escadaria imensa. Levantando os olhos, podíamos observar uma entrada e símbolos egípcios desenhados em enormes placas de pedra, enfeitando inclusive uma entrada à frente. Sabíamos que cada um daqueles símbolos representava algo muito importante. No pouco tempo que estávamos naquele lugar, descobrimos que aquele povo não desenhava por desenhar... não eram apenas artes... não eram simplesmente enfeites... eram sinais. Notamos também uma enorme movimentação de pessoas nas escadarias. As palavras de Osíris sobre "os protegidos dos Antigos" ainda pesava sobre nossas cabeças, e uma leve sensação de não estarmos em casa assolou a cada um de nós.
Instintivamente, olhei ao meu redor procurando pelo meu filhote, que já não era mais um filhote. Ele já estava crescido, estava forte... soberbo... magnífico. Já tinha se transformado num belo espécime adulto de tigre e eu nem percebera... não percebera nem que suas presas de sabre saíam de suas mandíbulas e se projetavam fortes e ameaçadoras para fora. Ele estava lá, do meu lado esquerdo, como sempre, sem que eu jamais o tivesse ensinado que era aquele o lugar onde ele deveria estar. Seus olhos amarelados se detiveram nos meus de uma forma muito especial... pareciam querer me confortar ao perceber lágrimas em mim. Eu não mais encontraria Zathar... mas, tinha pelo menos uma razão para continuar.
Desde que tornara o pequenino tigre meu companheiro, tentava em vão encontrar um nome para ele... na minha mente, um nome soava sem parar. Olhei para ele, tão belo e balbuciei baixinho:
_ Tien Kuei! _Satisfeito, ele se encostou no meu corpo e emitiu aquele som característico dos felinos, que sempre emitia quando deitávamos juntos para dormir... e eu não senti mais medo e nem dor.



4 comentários:

Anônimo disse...

Olá, adorei o seu blog. Posso te linkar no meu? Sou nova por aqui, aparece pra conhecer o meu blog, estou dando meus primeirios passos. Bjocas

Anônimo disse...

Oi que blog original adorei super diferente parabens beijos

Sir GB Skorpio disse...

Ótimas histórias, parabéns! Acompanharei sempre que possível. Saudações.

Anônimo disse...

Interessante, lindo, sensivel!
Adorei!
Seu espaço promete...Com paciencia e persistencia , crescera por si só!
Parabéns!
Posso dizer que estar aqui valeu a pena!
Beijo
T I N I N