
Foi aproximadamente no ano de 4 mil aC, no nordeste de Catai, numa aldeia próxima à curva principal do Rio Amarelo, que nasceu a quarta dos filhos da família de Zang e Li. Neste dia, seu pai ergueu uma taça feita com o crânio de um inimigo, forrada por fora com couro de búfalo e brindou com os companheiros de batalha a chegada do primeiro herdeiro do sexo feminino. Beber no crânio dos inimigos era um costume antigo entre aquela gente, que acreditava receber junto com a bebida todos os poderes do guerreiro derrotado.
Zang tinha desejado muito aquela filha. Ela seria especial, não só para sua tribo, quanto para todas as outras. Uma profecia muito antiga dizia que sua primogênita entre as meninas salvaria o povo de Catai das garras de um clã poderoso de vampiros. Sonhara com grandes feitos para a filha, tão grandes que seu sangue seria para sempre lembrado. Ensinaria a ela a arte da guerra, da prudência, da disciplina e das sutilezas. Ela não seria um espécime qualquer de mulher. Teria sim um grande e puro coração, seria bela como o lótus, encantadora como uma pluma e certeira como uma lança.
Alheia ao futuro, a menina crescia admirando a beleza da natureza, a grandeza e imponência das montanhas, acompanhando as formigas em sua caminhada com as provisões, ou, ainda, estática e emocionada diante da beleza rara de uma flor se abrindo em botão. A vida corria mansa. Já fazia algum tempo que os homens não saíam para suas conquistas e para guerra. A terra era boa e generosa, tão boa que as famílias tinham apreciado fincar nela suas raízes nômades e começar suas primeiras experiências no cultivo. Além do mais, se aperfeiçoavam na feitura de utensílios, ferramentas e armas de cobre, pois viviam a "Era do Metal".
Uma noite, nem bem o sol havia se posto, quando o som de um tropel de cavalos se misturou a gritos lancinantes de dor e desespero e ao estalar das labaredas do fogo queimando tudo. Pye-lem, este era o nome da menina, guardava os cavalos num cercado quando viu estarrecida sua aldeia queimar. Os gritos eram horríveis. As imagens, de puro terror. De longe, podia ver a silhueta de homens brandindo espadas e lanças, sustentando nas mãos cabeças decepadas. Tudo sob um céu dourado pelas chamas que subiam cada vez mais altas.
Ela começou a correr, esgueirando-se por entre as sombras, até encontrar a família dizimada. Viu o que sobrou dos irmãos, da mãe e procurou desesperadamente pelo pai, até encontrá-lo caído trespassado por uma lança. Não lhe restava mais nada além de fugir para tentar salvar o sangue de sua família, como tantas vezes Zang lhe dissera para fazer caso isto acontecesse.Foi um longo tempo de fuga. Muitas luas sob um frio enregelante de 20 graus negativos. Muitos dias sob sol escaldante do Deserto de Gobe, até encontrar uma floresta densa encostada ao sopé de uma montanha, com árvores lindas no formato de agulhas, cortada pelo mesmo Rio Amarelo que banhava a região de onde tinha vindo.
Naquela mata, Pye-lem viveu em total solidão durante 20 anos, tendo por companhia apenas os animais e as árvores. Na natureza, aprendeu as artes de observar, imitar e se adaptar às circunstâncias. O sofrimento do corpo e da alma fizeram que superasse os limites de sobrevivência. Já não parecia mais tão delicada quanto uma pluma, embora ainda guardasse um certo encanto no olhar. E era, cada vez mais, certeira como uma lança.Aprimorou sua habilidade em lidar com os animais, dos mais delicados às feras, aprendeu a distinguir ervas de todas as espécies e com elas a fabricar remédios para todos os males. Os que não podia curar com ervas, tratava com a mente. E desenvolveu um conhecimento incomum, contido nas pedras, para a transmutação. Ela se preparava para o desconhecido.
Com o tempo passando, novas tribos chegando para se fixarem ao redor da floresta, as famílias passavam por uma importante transformação em sua cultura. Pela primeira vez, abandonavam suas raízes nômades e iniciavam uma fase de sedentarismo para atividades agrícolas e criação de animais. Os homens, entretanto, mantinham-se como sempre muito envolvidos com batalhas e conquistas.
A primeira reação de Pye-lem foi de insegurança. Tanto tempo sem ter com quem falar e ainda muda do trauma que sofrera com a perda de toda sua gente, ela nem sabia mais qual era o timbre de sua voz. Aos poucos, aconteceram os primeiros contatos que nem foram tão negativos. Eles falavam e ela se expressava por sinais e gestos.
Um dia, ela viu uma das mulheres desesperada com o filho nos braços que parecia morto. Cheia de convicção se aproximou da mãe e, com gestos firmes, pediu que lhe entregasse a criança. A mãe relutou, mas o olhar de Pye-lem era tão límpido que ela lhe entregou o bebê e entraram mata a dentro. Na cabana, deitou a criança numa cama de folhas coberta por peles e começou a escolher as ervas para tratá-lo. O examinou cuidadosamente e concluiu que um animal venenoso o havia picado, ao perceber pequenas marcas de dentes no pescoço.
Durante dias cuidou da criança com dedicação e carinho. A mãe observava calada, admirada com a calma e a convicção daquela mulher estranha. Até que, uma manhã, ele abriu os olhinhos e sorriu. Estava salvo enfim. Suas ervas não eram boas apenas para cuidar dos animais.Daí em diante, era sempre procurada para cuidar de todos da redondeza. Eles traziam presentes, coisas para comer, vestir e se enfeitar, e ela retribuía minorando suas dores, seus males. Gratos pelo que ela fazia por suas mulheres, crianças e animais, os homens trataram de espalhar por todas as regiões vizinhas, e além-mar, sua fama de alquimista e curandeira.
Entretanto, Pye-lem desconhecia a força poderosa que trazia em si e, até mesmo, como a passava a quem precisasse através apenas do olhar, quando as ervas não eram suficientes para a cura. Só não se esquecia das palavras de Zang, sussurrando em seus ouvidos que ela era uma predestinada. Mas, tudo aquilo estava muito além de sua pequena compreensão.
Zang tinha desejado muito aquela filha. Ela seria especial, não só para sua tribo, quanto para todas as outras. Uma profecia muito antiga dizia que sua primogênita entre as meninas salvaria o povo de Catai das garras de um clã poderoso de vampiros. Sonhara com grandes feitos para a filha, tão grandes que seu sangue seria para sempre lembrado. Ensinaria a ela a arte da guerra, da prudência, da disciplina e das sutilezas. Ela não seria um espécime qualquer de mulher. Teria sim um grande e puro coração, seria bela como o lótus, encantadora como uma pluma e certeira como uma lança.
Alheia ao futuro, a menina crescia admirando a beleza da natureza, a grandeza e imponência das montanhas, acompanhando as formigas em sua caminhada com as provisões, ou, ainda, estática e emocionada diante da beleza rara de uma flor se abrindo em botão. A vida corria mansa. Já fazia algum tempo que os homens não saíam para suas conquistas e para guerra. A terra era boa e generosa, tão boa que as famílias tinham apreciado fincar nela suas raízes nômades e começar suas primeiras experiências no cultivo. Além do mais, se aperfeiçoavam na feitura de utensílios, ferramentas e armas de cobre, pois viviam a "Era do Metal".
Uma noite, nem bem o sol havia se posto, quando o som de um tropel de cavalos se misturou a gritos lancinantes de dor e desespero e ao estalar das labaredas do fogo queimando tudo. Pye-lem, este era o nome da menina, guardava os cavalos num cercado quando viu estarrecida sua aldeia queimar. Os gritos eram horríveis. As imagens, de puro terror. De longe, podia ver a silhueta de homens brandindo espadas e lanças, sustentando nas mãos cabeças decepadas. Tudo sob um céu dourado pelas chamas que subiam cada vez mais altas.
Ela começou a correr, esgueirando-se por entre as sombras, até encontrar a família dizimada. Viu o que sobrou dos irmãos, da mãe e procurou desesperadamente pelo pai, até encontrá-lo caído trespassado por uma lança. Não lhe restava mais nada além de fugir para tentar salvar o sangue de sua família, como tantas vezes Zang lhe dissera para fazer caso isto acontecesse.Foi um longo tempo de fuga. Muitas luas sob um frio enregelante de 20 graus negativos. Muitos dias sob sol escaldante do Deserto de Gobe, até encontrar uma floresta densa encostada ao sopé de uma montanha, com árvores lindas no formato de agulhas, cortada pelo mesmo Rio Amarelo que banhava a região de onde tinha vindo.
Naquela mata, Pye-lem viveu em total solidão durante 20 anos, tendo por companhia apenas os animais e as árvores. Na natureza, aprendeu as artes de observar, imitar e se adaptar às circunstâncias. O sofrimento do corpo e da alma fizeram que superasse os limites de sobrevivência. Já não parecia mais tão delicada quanto uma pluma, embora ainda guardasse um certo encanto no olhar. E era, cada vez mais, certeira como uma lança.Aprimorou sua habilidade em lidar com os animais, dos mais delicados às feras, aprendeu a distinguir ervas de todas as espécies e com elas a fabricar remédios para todos os males. Os que não podia curar com ervas, tratava com a mente. E desenvolveu um conhecimento incomum, contido nas pedras, para a transmutação. Ela se preparava para o desconhecido.
Com o tempo passando, novas tribos chegando para se fixarem ao redor da floresta, as famílias passavam por uma importante transformação em sua cultura. Pela primeira vez, abandonavam suas raízes nômades e iniciavam uma fase de sedentarismo para atividades agrícolas e criação de animais. Os homens, entretanto, mantinham-se como sempre muito envolvidos com batalhas e conquistas.
A primeira reação de Pye-lem foi de insegurança. Tanto tempo sem ter com quem falar e ainda muda do trauma que sofrera com a perda de toda sua gente, ela nem sabia mais qual era o timbre de sua voz. Aos poucos, aconteceram os primeiros contatos que nem foram tão negativos. Eles falavam e ela se expressava por sinais e gestos.
Um dia, ela viu uma das mulheres desesperada com o filho nos braços que parecia morto. Cheia de convicção se aproximou da mãe e, com gestos firmes, pediu que lhe entregasse a criança. A mãe relutou, mas o olhar de Pye-lem era tão límpido que ela lhe entregou o bebê e entraram mata a dentro. Na cabana, deitou a criança numa cama de folhas coberta por peles e começou a escolher as ervas para tratá-lo. O examinou cuidadosamente e concluiu que um animal venenoso o havia picado, ao perceber pequenas marcas de dentes no pescoço.
Durante dias cuidou da criança com dedicação e carinho. A mãe observava calada, admirada com a calma e a convicção daquela mulher estranha. Até que, uma manhã, ele abriu os olhinhos e sorriu. Estava salvo enfim. Suas ervas não eram boas apenas para cuidar dos animais.Daí em diante, era sempre procurada para cuidar de todos da redondeza. Eles traziam presentes, coisas para comer, vestir e se enfeitar, e ela retribuía minorando suas dores, seus males. Gratos pelo que ela fazia por suas mulheres, crianças e animais, os homens trataram de espalhar por todas as regiões vizinhas, e além-mar, sua fama de alquimista e curandeira.
Entretanto, Pye-lem desconhecia a força poderosa que trazia em si e, até mesmo, como a passava a quem precisasse através apenas do olhar, quando as ervas não eram suficientes para a cura. Só não se esquecia das palavras de Zang, sussurrando em seus ouvidos que ela era uma predestinada. Mas, tudo aquilo estava muito além de sua pequena compreensão.
2 comentários:
Show de bola teu blog. Não tive tempo de ler tudo, mas adorei. Lindo mesmo...
Raiodeindra
Olá,
como eu disse anteriormente, achei fantástico teu blog.
Dê uma olhadinha no meu:
www.meineblumedernacht.blogspot.com
Parabéns!
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